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quinta-feira, 1 de junho de 2017

436 - A SACRALIDADE DO PODER E A POSSE


A velha questão da origem do poder não é recente, nem sequer recua ou remonta à coroação de D. Afonso Henriques, o nosso primeiro rei. O meu bom amigo Vilaça diria tratar-se duma questão tão velha como o… e, para vos dar de imediato uma ideia geral diria ser consensual, isto é, ser tão velha quão a invenção de Deus pelo homem.

O poder só se conquista pelas armas, por transmissão dinástica ou através de eleições. Sempre houve desde a pré-história casos em que a origem do poder não deixava dúvidas, o ceptro ou a coroa de louros seria arrebatada pelo vencedor de uma luta, ou de uma guerra, dificilmente sendo o vencedor contestado ao tomar o poder para si e entronando-se ou fazendo-se entronar. 

Mais tarde encarregaria ou delegaria tal na classe dos sacerdotes ou não eram eles a entidade intermediária entre Deus e os homens ? Não podendo a divindade estar presente devido a mais urgentes afazeres, fazia-se que agisse por meio dos seus representantes, os únicos autorizados e capazes de interpretar augúrios e valorizar escolhas, fosse com base em vísceras de animais ou no palpitar de um coração acabado de arrancar. 

Actualmente existe também o recurso à leitura das borras de café ou à interpretação dos búzios e conchas atirados aleatoriamente para o areal de qualquer praia ao anoitecer, mas seja qual for a metodologia utilizada o fito será sempre avaliar os predicados do guerreiro a entronar ou do apaixonado a aceitar.  

Com o crescimento do clã, da tribo, do povo, cresce a necessidade da burocracia e dos cargos para a preencher, com a sedentarização surgem os agricultores, os pescadores e caçadores, ou mantenedores, depois a necessidade de quem defenda estes da cobiça de outros clãs, de outras tribos ou povos e aparecem os guerreiros, ou defensores. 

Daí a que surjissem os intermediários junto do divino foi um passo, o homem é místico, emergem os sacerdotes, os oradores e outras classes que a evolução conturbada do homem no planeta foi tornando necessária, os feiticeiros, os físicos e os boticários para nos tratarem da saúde, os barbeiros e os sangradores, os escribas e os mestres, os servos, os escravos, todos fazendo parte ou construindo uma estrutura ou organização piramidal, daí a frase “piramiza filho piramiza” que é como quem diz vai-te foder, desaparece daqui, pirâmide essa sobrecarregando as bases e terminando no pico com um só, que se arrogara e encarregara do direito de estar aí por vontade divina, fosse o divino quem fosse, para a circunstância qualquer um serviria e além de servir convinha…

No vértice o mais poderoso, o mais forte, o invencível, o que reinará sobre tudo e todos, o que tudo e todos possuía, inclusive o direito à vida dos seus inferiores. Ainda hoje assim é, ou é assim, daí enviarem mancebos para a guerra em defesa de interesses duvidosos, quando não próprios, de um grupo ou classe superior e possidente. 

Enviar jovens como carne para canhão em defesa duma pátria inventada para que melhor reinem não é dispor do direito à vida dos outros ? Possuir a vida dos outros ? Possuir os outros ?


A tomada de posse evoluiu naturalmente, da unção com uma lança ou uma caveira passou-se à unção com um ceptro ou uma espada. Nos dias de hoje é usado um recurso muito mais afiado e de maior amplitude, o discurso. Atestar o direito divino ao poder tornou-se crucial mas indispensável em especial nos casos de dinastias nascidas ou interrompidas. 

Vejam-se os casos de D. Afonso Henriques que a ele mesmo se armou cavaleiro com apenas 13 anos, em Zamora, 1125 pois já nesta altura só reis poderiam escolher e armar cavaleiros, ainda que apenas viesse a usar o título de rei somente em 1140 após aclamação na batalha de Ourique, prestando vassalagem ao Papa em 1143. O mesmo Papa que em 1179 através da bula Manifestis problematum reconhece finalmente o reino de Portugal, isto é deu posse a Portugal. 

Alguns anos mais tarde, por volta de 1305 oficial ou legal e unicamente aos reis seria permitido armar cavaleiros, o poder centralizava-se. No caso de D. João IV que sucedeu a D. Sebastião, morto em Alcácer-Quibir e pôs termo à dinastia filipina em 1640 não tomou posse, foi simplesmente aclamado como rei pelo povo e em cortes a 15 de Dezembro desse ano de 1640.

 Quem não for ungido em cerimonial será desvalorizado, ou nem se considerará empossado. Esta coisa da posse tem muito que se lhe diga e mais derivações ainda, o tomar posse, a posse em si, o possuir pode envolver ou abranger casos e situações surpreendentes, possuir a mulher por exemplo, é coisa que não estará completa sem o ámen dum sacerdote, ou do regedor, do notário, sem que ela seja ungida com o ceptro, a espada, a lança, o talo, daí dizer-se não estar o casamento consumado sem que a mulher seja atravessada pela espada, pela lança, possuída, penetrada, fodida. 

É um ritual machista e mundial este da posse da mulher de que nem as feministas se queixam nem a ele se subtraem, e pode como disse atrás revestir-se de derivações aberrantes ou absurdas, como por vezes acontece com o “ó filha não serás nunca inteiramente minha sem me dares esse rabinho redondinho e formosinho”… e a tomada de posse pela penetração meiga ou forçada ficará ao critério do macho possuidor, que o fará com mais ou menos dor ou meiguice e de acordo com a ideia muito própria que tenha da tomada de uma fortaleza ou de uma tomada de posse.


Portanto minhas meninas, quanto à história do “amor sou toda tua faz de mim o que quiseres” seria melhor que ficassem caladinhas no que à dádiva desses miminhos concerne, pois muitas enrabadelas acabam no hospital com dois ou três pontos de costura pelo menos, se não mais, dependendo do bacamarte do guerreiro ou do ceptro do rei. 

A penetração anal, longe de ser um acto de amor, é um brutal primevo e irracional acto de posse e submissão da mulher enquanto mero objecto da satisfação animalesca do homem, não diria do homem das cavernas mas diria do homem do talo, do homem das couves. Contudo tende em conta que este texto não tem por finalidade debruçar-se sobre a tentação, o pecado, a proibição ou o prazer, nem tão pouco atentar sobre fantasias, taras, manias ou desvios, cousas do âmbito da psiquiatria, da psicologia e da religião, as quais a pedido poderão ser exaustiva e sacramente abordadas noutra ocasião.

Ainda a propósito da sacralidade do poder, das cerimónias de tomada de posse ou de investidura acrescentaria que se em 1971 no Uganda tivessem investido um macaco em vez de Idi Amin Dada, (1920-2003) * toda a África teria beneficiado. 

E chegámos onde pretendo chegar, à compreensão das atitudes do PR Marcelo Rebelo de Sousa, que diariamente desmistifica e dessacraliza o poder e fá-lo cada vez que dá um abraço, um mergulho, pendura uma medalha, atribui uma honraria, distribui uma comenda ou espeta uma condecoração no peito de alguém. Essas homenagens mais não significam que tomadas de posse, é como se alguém dissesse és cá dos nossos, doravante pertences-nos. Idem para os caricatos rituais académicos ou os deveras anedóticos protocolos das confrarias do vinho, da cerveja, do porco, etc etc etc … 

O poder e a honra andam de mãos dadas é verdade, e os nobres homenageiam-se uns aos outros, mas também se arrastam pelo chão mor do descrédito que com tanta prebenda sobre eles teimam fazer cair. É verificar o rol de homenageados e as malfeitorias perpetradas contra este país. Desde Oliveira e Costa a Bava, Granadeiro, José Socrates há para todos os gostos.

Cada vez menos serão as cerimónias e o lugar a fazer o “homem”, o estadista, cada vez mais será o homem a fazer o “lugar”. O anterior PR, uma figura hierática que todas as fotos atestam estadista, observado na sua dinâmica nada seria sem a majestade do lugar que ocupou e do cargo que lhe puseram nos ombros. Por dentro estava vazio, como soa dizer-se brincando, saiu de Boliqueime mas Boliqueime não saiu dele. 

Perdeu o BdP um bom economista de trabalhos em equipa ou de grupo, pois demonstrou à saciedade que deixado sozinho somente fez merda. Aquela cabecinha não tem nadinha por dentro, nada, nem couves, talvez a Maria tenha apreciado o talo.  


* Major-General do exército ugandense, ditador militar e o terceiro presidente de Uganda entre 1971 e 1979 que se autopromoveu a Marechal de Campo e cujo governo ficou caracterizado por violações dos direitos humanos, repressão política, perseguição étnica, assassinatos, nepotismo, corrupção e má gestão económica. O número de mortos durante seu regime ditatorial é estimado por observadores internacionais e grupos de direitos humanos como situando-se entre cem mil e quinhentos mil.