sexta-feira, 15 de março de 2019

584 - MULHERES ANTES DE NÓS ... Expo Filipa Guerreiro no New Concept Coffee & Shop. Évora.


Nunca soube o que vem de dentro e transborda para fora das palavras, a não ser o que ficou por dizer e portanto não foi dito, por isso às vezes o digo, o impensável, o inaudito, o inusitado inesperado. Tendo sido o que fiz ao olhar na direcção certa e me deparar com o quadro número 5, que me não arrepiou a penugem dos braços mas provocou em mim indizível gesto de pálpebras.

Recuei uns passos para o olhar e focar com maior acuidade e, ao fazê-lo recuei igualmente umas décadas nas minhas memórias, amparei-me na cadeira junto à mesa sobre o dito quadro e ali fiquei contemplando-o, a lembrança sorrindo e a esperança a boiar no brilho dos meus olhos, galvanizados pelo ritmo africano e dissonante a duas batidas com que há cinquenta anos acompanhava a cançoneta que toda a maralha soletrava cada vez que surgia uma vedeta ou uma lambreta;

- Eu vi a B.B. na estrada marginal / montada numa Lambretta e mostrando o material…

cançoneta que não sendo nada de especial se propagava entre a rapaziada como fogo em pasto seco, deixando-nos na alma um aconchego e ponto final parágrafo, não vá a Margarida outra fotógrafa com tendências para gramática lixar-me o juízo ao ler isto. Ponto final parágrafo. Passemos pois aos parágrafosinhos pequeninos, mais facilmente tragáveis e digeríveis, diria por sua vez a Rebeca que pontifica na cozinha de um restaurante onde vou muito.

 MULHERES ANTES DE NÓS, uma exposição fotográfica de Filipa Guerreiro em mostra no New Concept Coffee & Shop, seduziu-me ou empolgou-me o suficiente para me prostrar ante o quadro 5 e depois percorrer com atenção todos os quadros restantes, anteriores e posteriores, debruçando-me sobre cada um e cada uma das mulheres neles retratadas, muitas delas minhas conhecidas, nossas conhecidas, nossas velhas conhecidas, de outras eras, de outras cenas, d’outras vidas.

Só não sei quem seja a Filipa, cuja ternura é bem vinda e se encontra plasmada em muitos daqueles quadros, em especial naqueles onde as rendas e rendinhas têm uma palavra a dizer, sabido como é sucumbir eu a esse artifício de filigrana de que a sensualidade se serve para nos cooptar, quando não arrastar ou prender por um fio, por uma guita, qual balão inflado de erotismo e vogando nos céus de um materialismo imagético cujo portefólio eu e todos arrastamos com maior ou menor discrição.

Pois saibam vossas excelências que foram nem mais nem menos essas rendas e rendinhas quem me levou numa viagem absurda a um passado que inda hoje recordo, Paris, loucura, anos vinte, “Casa Phundada em 1927”, Kermesse de France, Phragrancias de Europa para a mulher ideal, assim mesmo, com ph, montra em vidro negro biselado a dourado, decerto da mesma idade, Paris, loucura, anos vinte, Casa Phundada em 1927, ta explicada a coisa, a coisa e o estilizado novecentista de uns lábios e de umas pernas no vidro da montra, cujo significado demorei séculos a entender, os lábios retintos de vermelho da velhinha, teria sido bailarina ? Aprumada, arranjada, linda, já não há velhinhas assim, um dia plof e a loja para trespasse, mais uma que se foi… *

Ta explicada a coisa, a coisa e o estilizado novecentista desses lábios, os lábios retintos de vermelho da velhinha e de umas pernas no vidro da montra, cujo significado demorei séculos a entender ou seja, tudo isso e a mulher ideal que nunca conheci se me gravou na mente quando do meu exame de acesso à escola preparatória, e nunca mais eu ou somente mais tarde eu ... *

Casei mais tarde com uma santa mulher, mas a mulher ideal nunca, ainda hoje sonho conhecê-la, não passa de um sonho, já nessa época a Europa só sonhos e a única verdade que lembro é a mesma senhorita linda que desde esse exame segurava o leme ao balcão da loja, magra como um fuso e elegante que nem bailarina de can-can, teria sido bailarina ? *

Rejubilei ante o quadro 5 e tantos outros, e as rendinhas, e os remates, e quando acordei mirei tudo com redobrada atenção, já que assisti in vivo à ressurreição de um passado agora sem os limos nem as cores esverdeadas que os náufragos e os mortos invariavelmente arrastam ou trazem agarrados a si quando com uma fateixa os puxamos para quaisquer margens. * *

Dito e feito num ai, propositadamente me depeniquei p’ra me confirmar acordado, pois se tratava novamente de caso único nos anais do esoterismo, cujo karma decerto atrevidamente me convocara para testemunhar a aura e espalhar a palavra, o conhecimento e a luz emanadas por mais esta exposição. Saibam portanto os eborenses e outros habitantes deste mundo que nem a “Kermesse de France” morreu, está viva, vivinha da Silva, ou da Costa, mais linda que nunca e recomenda-se, nem o New Concept Coffee & Shop deixou a sua veia ou vertente cultural por mãos alheias tendo voltado a surpreender-nos e a brindar-nos com mais esta peculiar, linda, aparatosa, rara e insólita exposição. * *

Portanto passai palavra ou copiai e partilhai este edital e fazei saber a toda a gente que no New Concept Coffee & Shop vos espera uma inaudita e espectacular exposição e uma bica, e que a Kermesse de France, Phragrancias de Europa para a mulher ideal embora não tenha já a singeleza dos antigos dizeres, ou biselados dourados, mantém contudo as prateleiras preenchidas de aromas de encantar, filhos dos mais famosos narizes do mundo segundo tive há tempos ocasião de constatar embora não tendo logrado rever a tal velhinha guardada nas minhas ainda mais velhinhas memórias, precisamente quando eu um catraio e ela velhinha coisa nenhuma… 

           Ainda hoje recordo tudo menos a mulher ideal e a única verdade que lembro é a mesma senhorinha linda que desde um meu exame segurava o leme ao balcão da loja, magra como um fuso e elegante que nem bailarina de can-can, uma mulher esbelta e linda gravada, biselada a dourado nesta minha retorcida mente… * *


https://mentcapto.blogspot.com/2015/07/255-fragrancias-de-ontem-e-de-hoje.html

** https://mentcapto.blogspot.com/2012/12/135-evora-era-mais.html