sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

805 - “ RECADO PARA TI, CURTO MAS FORTE…"

        
 

                   “ RECADO PARA TI, CURTO MAS FORTE…"

 

Amiga, amigo, militante, simpatizante, vizinho, conterrâneo, quem quer que sejas este recado é para ti, a quem roubaram a dignidade, ou tiraram debaixo dos pés o emprego, ou a família, ou a casa, ou o carro, ou tudo em que acreditavas, completamente tudo.

 

Este recado é para ti que acreditaste no 25 de Abril, nas patranhas de Abril, nessa abrilada aldrabada e agora te sentes enganado, espoliado, ludibriado revoltado e ofendido.

 

Este recado é para ti, que todos os dias ouves chamar democracia a esta piolheira em que transformaram a nobre nação portuguesa e, olhas à volta surpreendido com os democratas que ela deu à luz.

 

Este recado é para ti, a quem não deixam passar de precária (o) escravizada (o) mas a quem tecem loas, e de quem dizem dichotes, fazendo de ti uma empresária (o) individual com iniciativa, e empreendedora ( ). Que possivelmente serás, mas a quem nunca darão a mínima oportunidade para o provares.

 

Este recado é para ti, a quem aqueles que te escravizam devem o voto, ou pior ainda, devem a tua abstenção. A tua abstenção deixa o diabo à solta, o voto em quem não o merece faz de ti cúmplice de quem te explora, te escraviza e te rouba a dignidade. Quem elege estes falsos democratas não é vítima, é cúmplice.

 

Este recado é para ti que perdeste a fé e já não sabes em quem acreditar. Este recado é para ti, para te despertar, para te animar, porque eu estou a teu lado para lutar por ti, e por mim, a quem a censura desta democracia abafa a voz.

 

Este recado é para ti, porque só com recados e boca a boca me é permitido trazer-te uma palavra de confiança, uma palavra de solidariedade, uma palavra de esperança, uma palavra de conforto, um abraço intencional.

 

Este recado é para ti, e é um pedido meu para que passes palavra, para que digas a muitos anónimos como tu e eu que há quem esteja erguendo o estandarte da liberdade, que há quem esteja lutando contra tudo e contra todos para que a esperança de Abril se concretize e possas recuperar tua dignidade, a nossa dignidade.

 

 

 Este recado é para ti, para que voltes a acreditar;

 

 que a dignidade é possível

 

que é democracia é possível

 

que a igualdade é possível

 

que a justiça é possível

 

que a esperança está viva !!!


Este recado é para te dar um justo abraço e te jurar um compromisso. O juramento de que lutarei por ti, por nós, pelo país, pela nação, pela pátria até a libertarmos !! 

 

Até nos libertarmos !!

 

Tu, eu, todos nós num NOVO PARTIDO ! Junta-te a nós ! Junta-te à ADN !  à ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA NACIONAL a nossa e a tua força !

 

Contigo, comigo e com todos chegaremos lá, e juntos sairemos do buraco onde nos meteram !!

 

 Não estás sozinha !!

 

Não estás sozinho !!

 

Viva Portugal !!

  

Viva Évora !!

 




P.S. - ESTE RECADO É PARA TI,

 

E MUITAS E MUITOS COMO TU E EU,

 

 PARTILHA-O,

 

ABERTAMENTE OU POR MENSAGEM PRIVADA,

 

MAS PARTILHA-O, DÁ FORÇA A ESTA LUTA !!

 

OBRIGADO E UM ABRAÇÃO DO BAIÃO !!

 

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

804 - UMAS BANDEIRAS EM MINHA DEFESA ...




   Estão sempre com piadas, sempre a empurrar-me para os braços desta ou daquela, isto só pra vocês verem o suplicio que vai sendo sentar-me na mesa deles na esplanada do café… pra uma ida à praia ou uma caminhada, ou à pesca... Foi o que foi ... É o que é e continuará sendo até que eu ceda ou lhes faça a vontade ...

 

- Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

 Confesso que já nem os vou podendo aturar...


E francamente, para os satisfazer ou calar, de vez em quando digo-lhes que têm razão e que já   escolhi meia dúzia delas para sondar, digo a uns, enquanto a outros vou prometendo inscrever-me na “universidade sénior” que, segundo eles, está cheia de velhos e velhas e é para isso que essa UE serve, prá gente ir lá escolher uma que, por exemplo, não deixe cair a dentadura cada vez que ri…

 

Tudo porque fiquei viúvo há relativamente pouco tempo, quase oito anos, e lá na ideia deles tempo demasiado pra estar sozinho nesta idade dizem, e que não posso nem devo continuar sozinho, se até já caí na banheira, nem devia isolar-me, ou ainda viro um eremita e bla bla bla bla…

 

A verdade é que é raro sentir-me só, passeio imenso pela cidade, bem bonita aliás, e lá vou subindo escadas, descendo ladeiras e subindo subidas claro, diria que repetindo ad nauseam os mesmíssimos percursos que percorria há uns anos, quando o Senhor nem pensaria ainda levar-me quem levou, sobretudo do modo como levou. Ou calcorreando sozinho e meditativo os quarteirões desde casa à rotunda, dali ao BPI, até alcançar a estrada de Arraiolos e voltar pra casa … 




Diria que a minha conversão aos discípulos do Deus de Spinoza vem desses tempos, já que nunca fui capaz de compreender nem aceitar tal, pois como todos sabemos na teologia tradicional cristã, Deus não é considerado mau, a maldade e o sofrimento no mundo são-nos atribuídos em virtude ou contraponto ao beneficio do livre-arbítrio que esse Deus humanamente nos concedeu e ainda à entrada do pecado na Terra.


Mais uma vez culpa nossa, que não soubemos resistir à tentação. É ou está mais que sabido, a Bíblia define Deus como totalmente bom, justo e fonte de misericórdia. Tudo coisas, conceitos demasiado velhos, até pra mim que embora esteja na meia-idade, nem preciso descer à terra pra matar a curiosidade quanto a esses tão incoerentes quão contrastantes conceitos para os achar um absurdo destinado a iludir cegos. Se há até gente que acredita no paraíso e na vida depois da morte…

 

Como tal, ou por isso mesmo, apesar dos passeios, percursos, a que umas vezes de manhã, outras ao fim da tarde, mas muito menos p’la noitinha dou rumo, já não esbarro como dantes com ruas, ruelas e praças apinhadas de gente. A maioria dos habitantes da urbe caminham para velhos, e a maioria dos velhos ficam enclausurados em suas casas por diferentes razões. São tantos que Évora, penso eu pensando nos velhos, será o lugar onde o negócio dos "mata-velhos" tenha sido ou seja uma das melhores ideias de negócios que alguém por estes lados teve...

                                            

Para ser sincero ainda me vejo com quarenta ou cinquenta anos e já há muito concluíra não estar preparado para estas coisas da idade, nem para estas nem para ingressar na tal “universidade” dos velhos, nessa então nem pensar !!

 

Gosto de caminhadas, são sempre optimos passeios de grupo, alegres, fáceis de aturar, sempre que posso inscrevo-me numa ou noutra, como disse gosto dessas idas e vindas, e pelo sim pelo não, no verão, levo calções de banho…




 - Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

Tudo porque lá na ideia deles, e viúvo há relativamente pouco tempo não posso continuar sozinho.

 

- Tens que ir em frente ... não podes ficar parado ... 

 

Alguém de quem se espera apoio para a cura, apoio ou conforto, é indiferente, como os amigos, a bem da verdade, involuntária e inconscientemente mais não conseguem que trazer-me de volta o sofrimento fazendo-me reviver lembranças e mágoas antigas.

 

E deste simpático e empático modo mais não alvitram que ao invés de as sararem, reabrem-me as velhas chagas, porque nem toda a paixão acabou quando partiste. Saíste da minha vida mas não do meu coração, continuas comigo, pra onde quer que vá tu me acompanhas, iludido, continuamos os nossos percursos, sussurrando, ombro no ombro, como se nunca tivesses abalado, sim, é o pior de tudo, amar-te como sempre te amei e amarei.

 

 “As pessoas, e o amor que passou pelas nossas vidas são tudo aquilo que deixamos uns aos outros.” 





terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

802 - PEIXEIRADA OU CACOFONIA ….

 


Antes de começar deixai-me esclarecer-vos que estou agradecido a António Costa, e não a qualquer outro, o que tem sido feito pelo país. Continuará sendo graças a ele que tudo que no futuro for feito por Portugal será pensado, ponderado e orçamentado. Tudo levará a sua marca, ele constituirá a marca do antes e do depois do caos.

 

 Mas igualmente vos direi ser pessoa de quem não gosto, com quem nem simpatizo minimamente e que, a serem verdadeiras as sondagens me surpreendem pela negativa. "Se alguém duvida eu não, A. C. será tido e julgado como o PM que mais mal preparado se apresentou para governar este país. Os anais da história só lembrarão o actual primeiro-ministro como o homem que enterrou Portugal, os portugueses e a esperança.

 

 Há cinquenta anos que o país é submetido a mentiras constantes e mal governado, com A. C. passámos a viver uma mentira permanente e fomos pior governados. Miragens, lucubrações, visões, más formações, loucura e idiotice atingiram com ele os limites aceitáveis ou suportáveis, o paroxismo. Porém esta dose cavalar parece ter tido a virtude de acordar finalmente os portugueses da letargia em que viviam, podendo dizer-se que hoje tudo escrutinam meticulosamente. Por que pensam vocês que um partido desconhecido até há pouco sobe nas sondagens ?

 


 No início era o verbo, depois tivemos um animal feroz, o primeiro arlequim louco a animar a maralha… Ao intuírem que o centrão não os poderá levar a lado nenhum os portugueses acordaram e deduziram finalmente o modo arrevesado como os socialistas os trouxeram até aqui. E enquanto os partidos do arco da desgovernação (os restantes só têm empatado) andarem de braço dado quando os portugueses estão já fartos e cansados desse triste fado, tudo será cada vez mais e melhor escrutinado, avaliado e ponderado. O facto de praticamente todos os dias nascerem novos partidos, a maioria deles fundados por dissidentes que por dentro não conseguiram mudar aqueles em que militavam, a democracia está assegurada. (Pelo menos 14 estarão a concorrer em 10 de Março).

 

 Mas apuremos o saldo, deram-nos alguma coisa de extraordinário os socialistas, os democratas, os centristas ou os comunistas ? Deixar-nos-ão algo por aí além os actuais socialistas ? Mentiras e dívida sobrarão depois de cinquenta anos de corrupção, amiguismo, compadrio, desvario, incompetência, irresponsabilidade, desresponsabilização e oportunismo.

 

 Um problema transversal e cultural que suja todos os partidos do regime, diria eu, quero dizer, de falta de cultura, um problema de tecnicismo a mais e humanismo a menos, um problema de excesso de Excel e ignorância de Heródoto, um problema de ambição desmedida de gente sem estofo, sem tarimba, sem classe, sem garra mas com unhas, que deitam a tudo que possam.

 

De cinquenta em cinquenta anos aparece um deputado de louvar, morreu Sá Carneiro, temos agora a título de exemplo a Marisa, a Ana, a Catarina, e o Jirólmo para compensar. Entre um e outras (o) a banalidade, a boçalidade, o servilismo à disciplina partidária, o vampirismo de partidos organizados em função do poder, da avidez, da fortuna fácil, do politicamente correcto. Como desígnio e resposta a nada …

 


 Abri um velho Diário Económico e leio esta pérola, «…A Camargo Corrêa, empresa brasileira que controla a Cimpor desde Junho de 2012, está a estudar a venda de activos, o encerramento de algumas unidades industriais menos produtivas e rescisões de pessoal… na Cimpor prossegue com a apreciação do seu ‘portefólio' de activos não operacionais, não excluindo hipóteses pontuais de alienação”…» Uma empresa portuguesa nacionalizada sem qualquer pensamento estratégico (como todas as outras) lançou todos no desemprego e deixou de pagar impostos, obedecendo à lei cega do lucro fácil e rápido, sem custos, pois fechada renderá mais. A falta de cimento nos mercados fará subir os preços e rentabilizar em 300 ou 400% o investimento do grupo nela.

 

 Seguir-se-ão a Secil ? (1) E uma e outra empresa e muitas outras empresas até que emigremos todos e o país encerre de vez ? Que devemos aos democratas e aos socialistas que não mais de cinquenta anos de fingimento, que é como quem diz, de NINS ? Mesmo assim, nem sim nem não, ou aos social-democratas que não a morte das pescas, da indústria, da agricultura às mãos de Cavaco, ou esta cegueira suicidária do confinamento exagerado às mãos do ignorante A. Costa e que fulminou dezenas e dezenas de PME e com elas milhares de postos de trabalho.

 

 Depois de Salazar e Caetano ninguém mais soube como governar este país. Sentaram-se, estiveram, desfrutaram da cadeira do poder sem sequer imaginarem o que isso implicaria. Todavia a culpa não é só de quem governa, quase quarenta anos de Salazar e mais cinquenta desta democracia de merda devem-se a este povo a estes eleitores, dos quais metade descrê e não vota, sabendo-se que a outra metade vota nos mesmos de sempre julgando, e acreditando, que alguma vez esses mesmos irão fazer coisa diferente da que sempre fizeram.

 

 Felizmente apareceram uma dúzia de pequenos partidos abanando as consciências e acordando finalmente este ensonado povinho, que se levanta tacteando a parede em busca do papel higiénico, ignorante de tudo e por isso ainda mais desconfiado de todos. Por inacção ou omissão todos somos culpados e essa é a verdadeira questão. Mas afinal em quem poderemos confiar ? (14 irão concorrer a 10 de Março)

 


 Por que razão nunca se responsabilizaram os concelhos pelas suas taxas de desemprego ? É fácil e cómodo atirar as culpas para cima do IEFP. Por que nunca se responsabilizaram os concelhos pelas taxas de PIB alcançadas por eles mesmos ? É mais fácil culpar os sucessivos governos… Por que nunca se estabeleceram metas e exigiram resultados aos responsáveis, em cada município, pelos departamentos de desenvolvimento económico ? Que pariram esses departamentos ao longo de cinquenta anos a não ser bons empregos públicos ?

 

E o interesse público ? E o interesse dos eleitores ? E o dos munícipes ? Alguém conheceu a esses departamentos de “desenvolvimento” os planos de actividade ?  Alguém lhes conheceu resultados ? Alguém viu alguma vez os seus mapas de execução ? Alguém foi corrido ? Mudado ? Substituído ? Não culpemos somente os governantes, nem os presidentes, ou os vereadores, há por aí muito director, chefe de serviço e deputado municipal a precisar igualmente de ser reformado.

 

 Já vos devo ter contado que há uns meses ia matando uma criança com a mota, nem ia a mais de vinte à hora, para a evitar quase esbarrei com um carro que se apresentava em sentido contrário, felizmente com a brusquidão da travagem a mota derrapou e atirou-me ao chão antes de colidir com ele. Esfolei o joelho, a mão, o cotovelo, desloquei um ombro, mas não toquei no cabrão do gaiato, que ficou mais branco que a cal da parede. Saíra repentinamente pela porta traseira esquerda do carro da mamã que parara em fila dupla no meio da via, por culpa da inconsciência, mas também do planeamento da via junto à escola, nova, da incompetência de quem desenhou os acessos e da irresponsabilidade de quem os aprovou.

 

 Noutro dia abordarei esta questão com maior acutilância, por hoje já desabafei. Como se pode ser um bom ministro, presidente, ou um bom vereador, com subordinados ou colaboradores deste jaez ? Para já fica a questão ou a pergunta no ar…

 


 Portugal carece de reformas há cinquenta anos, imensas e profundas, a minha crítica a António Costa deve-se ao facto de ter tido uma oportunidade de ouro para as fazer e não as ter feito. Sim, porque fingir que faz e não fazer não pode confundir-se com uma reforma da administração local, ou o fecho de balcões com uma reforma da economia. Reformou-se por encomenda de quem nem o país conhecia e até o Dr. António Borges antes de falecer admitira o erro na nossa integração no Euro e causa parcial do desastre económico que se lhe seguiu e estamos a viver.

 

 A ignorância larvar e o desconhecimento do seu próprio país conduziram António Costa a um beco sem saída que agora nos quer vender como se fosse o paraíso, por isso as mentiras não param claro, agora é encadeá-las umas nas outras para que pareçam verdade. (o comissionista não era o 44?).

 

 Os portugueses toparam-no logo, e responderam-lhe com os pés, mas montado numa geringonça António Costa fez-se dono dum país ficando contudo com ele na mãos sem saber o que fazer-lhe e, sendo um trapalhão atrapalhou-se, mas trapaceou-nos o melhor que soube.

 

 Eu pelo menos, e julgo que mais portugueses, agradeço-lhe, agradecemos-lhe. O país nunca mais será o mesmo, nem a oposição, que mudará forçosamente, não mudou ainda o suficiente, nunca mudará o suficiente, mas o país tem mais gente, e mais gente significa mais opções e mais respostas, mais alternativas, mais partidos, o que nos garante nada mais vir a ser como era dantes.

 

 No que eu não creio mesmo é que quem nos trouxe até aqui daqui nos tire, porque para essa gente, “A OESTE NADA DE NOVO”, continuam pensando como pensavam, imaginando continuar a servir-se de nós como serviram.

 

É hora de dizer basta. É hora de mudar  !!

 

 

 (1)   http://economico.sapo.pt/noticias/cimpor-fecha-fabricas-e-despede-funcionarios-no-brasil_226793.html.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

801 - FENOMENOLOGIA, UM LONGO ESTUDO ...




Quem estivesse espreitando por cima do meu ombro não entenderia patavina acerca do que a Katy me interrogava num e-mail e, ainda menos da resposta que eu dera à sua questão,

 

Ela - então como correu a festa ?

 

A festa a que ela aludia de imediato me trouxe à memória o primeiro verso da primeira versão da canção TANTO MAR de Chico Buarque De Hollanda, e digo a primeira versão da dita canção por a grande maioria  do pessoal desconhecer haver uma segunda escrita uns anos mais tarde.

 

  Enquanto uma começa "QUE BONITA A TUA FESTA PÁ" a segunda, cantada passados alguns anos, confirma a evolução do tempo e das circunstâncias pois começa deste curioso modo: " ESTRAGARAM TUA FESTA PÁ "…

 

  Em qualquer dos casos o refrão mantem-se, "TANTO MAR, TANTO MAR " entre ele e nós, daí que não tendo eu conseguido afastar entre mim e ela, fê-lo uma outra também metida na conversa, e que não a Kathy a aniversariante, pois lhe respondeu em linguagem telegráfica: "Mula continua teimosa STOP de resto tudo normal STOP estamos festejando na Taberna do Centenário STOP sitio onde comemos há anos o primeiro almoço STOP será este o último ? STOP o que fecha o ciclo ?? STOP só Deus sabe STOP cumprimentos STOP”, referindo o facto de as pretensões diplomáticas no cerne da festa, ou do aniversário da Camila não terem tido até ali quaisquer resultados, qualquer sucesso, nem disso haver sequer a mínima sombra.

 

Entre mim e ela, Kathy, continuava existindo um oceano, que é como quem diz, tanto mar, tanto mar, ou uma distância incontornável quanto a qualquer entendimento mesmo que aproximado.

 

A “festa” foi o aniversário da Kathy, para o qual fui convidado tendo-o abordado sob o manto da capa e espada da espionagem pois foi sob esse pretexto que me propusera ir à “festa”, onde nos encontrámos para decidir do nosso futuro, isto é, se ficaríamos ambos sob a protecção do mesmo meridiano, ou quem de nós se deveria ou teria que deslocar 370 léguas para leste ou para oeste do meridiano de referencia.               

 

Se querem saber como entre nós ficaram as coisas diria que as partes ficaram cada uma de seu lado do paralelo 38, irredutíveis, teimosa e estupidamente irredutíveis, enfim, burrada para durar já que uma das partes, mais próxima do Circulo Polar Ártico, parece ter congelado no tempo e não ver a situação actual, as necessidades futuras impostas pela idade etc etc etc ... Já a parte contrária, talvez porque a sul e mais chegada ao Equador, debitou bom senso, discernimento, prudência, e demonstrou possuir uma boa intuição da situação que apresentou num cocktail equilibrado, ajuizado, prenhe de circunspeção.

 

Embora o diálogo tenha sido diplomaticamente atencioso nenhuma das partes se deixou seduzir pelos argumentos da outra, o que deixa em aberto a possibilidade de exclusão, afastamento, esquecimento e guerra, nesta parte do campeonato não creio que a coisa venha a deixar saudades, derivando do facto de as posições assumidas, irredutíveis em áreas cruciais como a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo não terem tido solução.

 

Como abordar a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo ? Duas questões que parecem diferentes, talvez se encontrem num ponto muito íntimo da condição humana: o que damos de nós ao outro e o que acontece entre duas pessoas quando os seus corpos, os seus desejos e as suas interioridades se encontram.

 

Vamos devagar, porque cada uma destas questões merece espaço para respirar.

 

1. A reciprocidade — a difícil arte de dar e receber, aqui devemos começar por uma pergunta: Quando damos, damos algo realmente ao outro ou cedemos também à imagem que desejamos que o outro tenha de nós ?

 

Parece uma subtileza, mas não é.

 

Podemos amar alguém e desejar a sua felicidade sem exigir nada em troca. Contudo, mesmo nesse amor aparentemente desinteressado, pode existir uma expectativa silenciosa: a de sermos reconhecidos, compreendidos, valorizados ou, simplesmente, amados, mais, sermos amados como gostaríamos e quereríamos. Não significa que o nosso amor seja falso. Significa que somos humanos.

 

Vejo três dimensões na reciprocidade:

 

A reciprocidade material: dou-te alguma “coisa” e tu dás-me alguma “coisa” idêntica. É a dimensão mais facilmente mensurável.

 

A reciprocidade afetiva: dou-te atenção, ternura, desejo, tempo e disponibilidade; espero que também me reconheças como alguém importante na tua vida e retribuas do mesmo modo.

 

A reciprocidade existencial: permitimos que o outro nos transforme e aceitamos a responsabilidade de também o transformarmos. Já não se trata apenas do que cada um recebe, mas daquilo em que ambos se tornam.

 

É nesta terceira dimensão a questão mais interessante. Porque a reciprocidade exige que ambas as partes reconheçam a existência, a dignidade, o gosto, as preferências e a importância da outra. A igualdade dos sentimentos implica a identidade e similitude dos sentimentos em relação a….

 

Podemos amar de maneiras diferentes. Podemos até amar com intensidades diferentes. A questão decisiva é saber se um deles acaba ou não por se tornar apenas o destinatário dos sentimentos de quem dá.

 

E há aqui um paradoxo: podemos dar muito e receber pouco sem sermos necessariamente vítimas; mas, se dermos continuamente à custa da nossa própria dignidade, o amor pode converter-se numa forma de abandono de nós próprios.   A reciprocidade é uma contabilidade sentimental. Mas também pode ser uma conta permanentemente paga por uma só pessoa, o que é de todo errado.

 

2. A metafísica do sexo — o corpo como lugar de encontro.

 

Aqui, entramos noutro território. Começaria por distinguir três coisas: o sexo como acontecimento físico, como experiência psicológica e como experiência de significado emocional.

 

No primeiro plano, temos os corpos, o desejo, a excitação, o prazer, o acto sexual puro e isolado de sentimentos.

 

No segundo, temos a história de cada pessoa: as suas memórias, inseguranças, fantasias, necessidades, medos e expectativas.

 

No terceiro, surge a pergunta metafísica:

 

Quando dois corpos se encontram sexualmente, encontram-se apenas dois corpos ou acontece alguma coisa que ultrapassa a materialidade desse encontro ?

 

Não precisamos de recorrer ao sobrenatural para reconhecer a profundidade da pergunta.

 

O corpo não é um objeto que possuímos separado de nós. É a nossa maneira de estar no mundo e de nos tornarmos acessíveis aos outros. No encontro sexual, essa acessibilidade pode atingir uma intensidade singular.

 

Por instantes, podemos sentir que as fronteiras entre o eu e o outro se tornam menos rígidas. O outro deixa de ser apenas alguém que observamos exteriormente e passa a participar numa experiência que construímos em conjunto.

 

Mas atenção: a proximidade física não garante proximidade interior.

 

Duas pessoas podem ter relações sexuais sem estabelecer uma ligação afectiva profunda. E duas pessoas profundamente apaixonadas podem experimentar a sexualidade como uma forma de intimidade que não se esgota no prazer.

 

É por isso que eu não confundo sexo com amor, nem os separaria necessariamente. O sexo pode ser prazer, descoberta, comunicação, afirmação, fuga à solidão, procura de validação ou expressão de amor. Por vezes, reúne várias destas coisas.

 

A dimensão metafísica aparece quando perguntamos o que significa, para cada pessoa, entregar-se e receber o outro. O corpo pode dizer «desejo-te» sem dizer «amo-te». Mas também pode dizer «amo-te» de uma maneira que as palavras não conseguem reproduzir.

 

E talvez seja esta ambiguidade que torna a sexualidade tão poderosa e, por vezes, tão dolorosa. Porque duas pessoas podem participar no mesmo acontecimento físico e viver ou não acontecimentos interiores completamente diferentes. Uma pode sentir que partilhou algo irrepetível. A outra pode sentir que viveu um momento agradável(ou desagradável), sem que isso altere o lugar que a primeira ocupa na sua vida. O encontro foi o mesmo. O seu significado foi ou não foi.

 

3. Onde as duas questões se encontram:

 

É aqui que eu juntaria a reciprocidade à metafísica do sexo.

 

Imaginem duas pessoas que se desejam. Cada uma leva para o encontro o seu corpo, mas também a sua história, as suas expectativas e a sua maneira de amar. Cada uma procura alguma coisa, mesmo que não saiba exatamente o quê. E cada uma oferece alguma coisa, mesmo que não tenha consciência do que está a oferecer.

 

A questão fundamental passa a ser esta:

 

O que acontece quando aquilo que uma pessoa pensa estar a dar não corresponde àquilo que a outra pensa ou deseja receber ?

 

Uma pode oferecer prazer e acreditar que ofereceu amor. A outra pode receber amor onde apenas existia desejo. Ou ambas podem amar, mas atribuir ao encontro significados diferentes.

 

Não há necessariamente mentira nem maldade. Pode haver apenas uma assimetria profunda entre duas interioridades.

 

E é aqui que a reciprocidade deixa de ser uma simples troca: torna-se um problema de reconhecimento. Não basta perguntar se ambos participaram. É preciso perguntar se ambos compreenderam, respeitaram e acolheram, dentro dos seus limites, o significado que o encontro tinha para o outro.

 

O sexo pode unir corpos sem unir projetos de vida. Pode criar intimidade sem compromisso. Pode também tornar-se uma linguagem através da qual duas pessoas se reconhecem e se transformam mutuamente. Talvez a sua dimensão mais profunda resida precisamente nesta possibilidade: um encontro entre dois seres que nunca conseguem conhecer-se inteiramente, mas que, por instantes, podem sentir que se aproximaram do mistério um do outro. O sexo aproxima, gruda-nos.

 

E deixo uma última reflexão:

 

Há uma diferença entre possuir o corpo de alguém, ser desejado por alguém e ser verdadeiramente acolhido por alguém.

 

São três experiências distintas.

 

O desejo pode fazer-nos sentir escolhidos. A intimidade pode fazer-nos sentir próximos. A reciprocidade pode fazer-nos sentir reconhecidos. A reciprocidade engloba as três experiências ainda que nenhuma das outras experiências garanta automaticamente a reciprocidade.

 

E talvez uma das grandes questões da existência humana seja esta: como podemos aproximar-nos profundamente de outra pessoa sem a reduzirmos às nossas necessidades, sem nos reduzirmos às dela e sem confundirmos a intensidade de um momento com a verdade de uma relação plenamente fruída por ambos ?

 

Uma pergunta sobre sexo, é também uma pergunta sobre liberdade, alteridade, amor e solidão.

 

A reciprocidade: dar, receber, esperar ou ficar em dívida afetiva quando dar o corpo significa coisas diferentes para cada pessoa, perdendo o outro, a liberdade e o sentido da troca, sentindo fenecer o desejo, as emoções, expectativas e vínculos, já que sem reciprocidade eles dificilmente ou nunca se criam. A reciprocidade existencial, íntima é que tudo ou quási tudo significa na vida concreta de duas pessoas, ou o máximo que conseguem é encontrar-se nos corpos, mas desencontrar-se nos sentimentos. Uma chega onde a outra nunca esteve. Uma permanece onde a outra já partiu. Uma atribui ao encontro um significado que a outra não reconhece.

 

E o mais perturbador é que ambas podem ter vivido sinceramente aquele momento. Não é obrigatório que uma tenha mentido para que a outra tenha sofrido. Talvez o desencontro mais doloroso aconteça quando duas pessoas se encontram fisicamente, se tocam intimamente, mas não coincidem no significado que atribuem ao que viveram.

 

E aqui regressamos à reciprocidade: eu posso dar-te algo que considero precioso, mas não posso decidir por ti o valor que lhe atribuis. Posso desejar que o nosso encontro nos transforme a ambos, mas no final não posso determinar a transformação que ele produzirá em ti ou em mim.

 

Há, porém, uma nuance que me parece essencial: desencontrar-se não significa necessariamente que não houve encontro. Pode ter havido intimidade verdadeira, ternura verdadeira, desejo verdadeiro. O desencontro pode estar naquilo que cada um esperava, naquilo que cada um compreendeu ou naquilo que cada um estava disposto a construir depois. O desencontro pode estar nas expectativas, evidentemente goradas.

 

Talvez o drama humano não seja apenas o de não conseguirmos chegar ao outro. Talvez seja também o de chegarmos até ele, tocarmos algo de profundamente humano, e descobrirmos que aquilo que aconteceu em nós não aconteceu da mesma maneira nele. Este assunto é extraordinariamente interessante: por que razão duas pessoas que se encontram sexualmente podem desencontrar-se humana, afectiva ou existencialmente ?

 

Começaria por uma hipótese: o desencontro pode nascer não daquilo que separa duas pessoas, mas daquilo ou da expectativa que cada uma leva para o mesmo encontro. Duas pessoas podem desejar-se sexualmente, mas desejar coisas diferentes através do sexo.

 

Uma procura prazer. A outra procura intimidade. Ou uma quer uma experiência; a outra não participa apesar de ambas esperarem o princípio ou a continuação duma relação. O corpo pode ser o mesmo território, mas os destinos são diferentes. E nenhuma das duas coisas é necessariamente ilegítima. O problema surge quando as expectativas não são reconhecidas ou são deliberadamente torneadas ou não realizadas.

 

Resultado ?  Atribuição de significados diferentes e a entrada numa dimensão mais profunda. Para uma dessas pessoas, o sexo pode significar entrega, confiança, exclusividade ou amor. Para a outra, pode ser uma experiência intensa, mas circunscrita àquele momento e gorada pelo não cumprimento da reciprocidade ou das expectativas que para o encontro levava.

 

Ambas podem sentir prazer ainda que isso possa ser duvidoso. Ambas podem estar a ser sinceras. E, no entanto, podem sair do mesmo encontro com interpretações radicalmente diferentes daquilo que viveram. O acontecimento é partilhado; mas o significado não é necessariamente comum, do que sobra uma assimetria dos sentimentos, uma pessoa pode amar mais do que a outra. Ou pode estar emocionalmente mais disponível, mais envolvida, mais preparada para assumir as consequências da intimidade, a outra foi olvidada, criou-se uma dificuldade: não existe um instrumento que meça o amor e permita comparar duas pessoas. A assimetria resultante revela-se sobretudo nas atitudes, nas escolhas, na disponibilidade e no valor ou expectativa da continuidade que cada um passa a atribuir à relação.

 

E que um deles possa nem se aperceber pode produzir uma situação dolorosa: aquilo que para um é central na sua vida pode ser apenas periférico na vida do outro. Ora a incapacidade de reconhecer o outro é porém especialmente importante e acarreta o risco dessa incapacidade se tornar um instrumento, neste caso negativo, dessa própria experiência. Não significa que não exista afecto. Significa que o afecto pode coexistir com uma compreensão insuficiente da pessoa que temos diante de nós. Podemos estar intensamente interessados em alguém sem estarmos verdadeiramente disponíveis para essa pessoa.

 

O medo da intimidade e o pudor faz com que haja quem deseje aproximar-se e, quando a proximidade acontece, sinta necessidade de se retrair ou afastar. A intimidade pode despertar receio de dependência, de perda de liberdade, de rejeição ou exposição emocional. A pessoa aproxima-se porque deseja; afasta-se porque teme as consequências daquilo que deseja. Isto pode contribuir para relações de aproximação e afastamento, embora não devamos presumir que todo o afastamento resulta de medo. Por vezes, a pessoa simplesmente não quer continuar.  As histórias pessoais são diferentes, ninguém chega a um encontro inteiramente vazio, levamos connosco experiências anteriores, conceções sobre o amor, expectativas, aprendizagens, inseguranças e maneiras diferentes de compreender o sexo.

 

O que para uma pessoa é natural pode ser profundamente significativo para outra. O que uma considera uma demonstração de carinho pode ser entendido pela outra como uma manifestação inabitual de desejo.

 

Não vemos apenas o que acontece: interpretamos o que acontece através da nossa história e a falta de comunicação ou a comunicação ilusória, que acontece quando duas pessoas apesar de  falarem muito mesmo assim, não comunicam aquilo que realmente importa.

 

Podem dizer «gosto de ti» atribuindo à frase significados diferentes. Podem evitar perguntas difíceis para não perturbar a relação. Podem presumir que o outro sente aquilo que elas próprias sentem. E há ainda uma situação mais delicada: uma pessoa pode compreender perfeitamente o que a outra deseja, mas não conseguir ou não querer corresponder.

 

Nem todo o desencontro resulta de um mal-entendido. Alguns resultam de verdades que não coincidem.     Mas há uma questão ainda mais funda: por que razão não coincidem ?

 

Até aqui enumerámos causas psicológicas e relacionais. Mas suspeito que o interesse delas vai além disso. Imaginemos que duas pessoas são adultas, livres, sinceras, sentem desejo uma pela outra e não estão a mentir. Por que razão o encontro pode, ainda assim, produzir experiências interiores tão diferentes ? Uma hipótese é que cada pessoa viva o encontro a partir de uma interioridade a que só ela tem acesso direto.

 

Uma pode reconhecer o outro, ouvi-lo, observá-lo, tocar-lhe e amá-lo. Pode aproximar-se extraordinariamente da experiência do outro. Mas não pode ocupar o lugar do outro e sentir exatamente aquilo que ele sente.

 

Na filosofia, esta questão relaciona-se com a alteridade: o outro até poderá ser alguém que eu conheça, mas nunca posso transformá-lo inteiramente numa extensão de “mim”.

 

E o sexo torna esta dificuldade particularmente visível, porque produz uma proximidade corporal muito intensa sem eliminar a distância entre duas consciências. Os corpos podem estar juntos. As experiências podem sobrepor-se parcialmente. Mas cada pessoa continua a viver o acontecimento a partir de si.

 

Daí uma possibilidade perturbadora: a máxima proximidade física não garante a máxima proximidade interior. E talvez seja precisamente essa diferença que existe quando falamos na metafísica do sexo.

 

O desencontro é inevitável ? Não creio que seja inevitável em todas as suas formas. Mas alguma diferença entre duas experiências será sempre possível. Não podemos garantir que sentimos o mesmo, que atribuímos o mesmo valor ou que desejamos o mesmo resultado ou futuro que o outro.

 

Podemos, contudo, procurar compreender o outro, comunicar com honestidade, reconhecer as diferenças e negociar o que cada um está disposto a viver. O objetivo não precisa de ser uma coincidência absoluta. Pode ser uma relação em que as diferenças são conhecidas e respeitadas.

 

E importa distinguir duas situações:

 

Desencontro sem culpa: duas pessoas descobrem honestamente que querem coisas diferentes. Desencontro com responsabilidade: uma pessoa conhece as expectativas da outra, alimenta-as deliberadamente ou desrespeita aquilo que foi acordado. A dor pode existir em ambos. A responsabilidade, porém, não é necessariamente a mesma.

 

Agora, há três caminhos possíveis, qual é o núcleo do desencontro que interessa?

 

Psicológico: por que desejamos pessoas que não desejam o mesmo que nós ?

 

Metafísico: como podem duas pessoas partilhar a intimidade e viver realidades interiores diferentes se são desiguais nos seus gostos ?

 

E voltamos à vaca fria, à “reciprocidade” ou por que razão aquilo que damos e recebemos no sexo e no amor raramente coincide por completo ? Porque, tenho uma suspeita: talvez não te interesse tanto saber por que as pessoas se encontram, mas perceber por que razão, quando se encontram, não conseguem necessariamente encontrar-se uma na outra.

 

E essa é uma pergunta ou questão bem mais difícil de ser respondida.

 

Imaginemos, duas pessoas dão-se bem em tudo: conversam, entendem-se, riem, respeitam-se, talvez até se admirem profundamente. Existe cumplicidade em quase todos os domínios, mas no campo sexual zero, não conseguem... Não há química, antes pelo contrário... Quando chegam ao campo sexual, nada. Não há atração; talvez exista até uma espécie de repulsa ou desconforto. A compatibilidade entre duas pessoas não é uma realidade única. É possível haver uma enorme compatibilidade humana e, simultaneamente, uma incompatibilidade erótica.

 

Mas o que interessa nessa hipótese é precisamente o por quê. Podem existir várias razões: a pessoa pode gostar muito da outra sem sentir desejo sexual; pode haver uma inibição específica naquele vínculo; pode existir uma ausência de atração física ou erótica que não depende da beleza; ou pode haver algo na dinâmica entre ambos que bloqueia o desejo, que bloqueia a acção.

 

E há uma distinção importante: não sentir atração não é o mesmo que sentir aversão. O zero é ausência; o contrário do desejo já implica uma reação negativa, que merece ser compreendida. A pergunta que eu colocaria no centro desta investigação é esta:

 

Se duas pessoas se entendem tão bem em tudo o resto, por que razão essa harmonia não se traduz em desejo ou no campo sexual ?

 

A harmonia humana não produz necessariamente química erótica. Mas será que essa química é algo espontâneo, independente da nossa vontade, ou pode ser construída, estimulada, aprendida e transformada pela relação ? Uma sente desejo e quer concretizar mas a outra é pudica e moralista e essa pode ser  uma peça fundamental do problema.

 

Uma pessoa sente desejo, quer concretizá-lo. A outra, apesar de se dar bem com ela em tudo o resto, é pudica e moralista e trava algum tipo de aproximação sexual. Ficam três possibilidades.

 

1. Não sentir desejo não é o mesmo que reprimir o desejo.

 

A segunda pessoa pode genuinamente não sentir atração sexual. Nesse caso, o pudor e a moral podem ser a explicação que encontra para uma ausência de desejo que já existia.

 

Ou pode sentir desejo, mas considerar que concretizá-lo é errado, impróprio ou incompatível com os seus valores.

 

São situações muito diferentes.

 

O desejo de um pode tornar-se a pressão sentida pelo outro.

 

Quanto mais uma pessoa procura concretizar a intimidade, mais a outra pode sentir que tem de se defender, sobretudo se interpretar essa aproximação como uma ameaça aos seus princípios. E quanto mais uma se afasta, mais a outra pode insistir, frustrar-se ou sentir-se rejeitada. Forma-se, assim, um círculo em que o desejo de um e a resistência do outro se reforçam mutuamente.

 

A questão mais profunda é a relação entre desejo, moral e liberdade. Uma pessoa pode considerar que o desejo é natural e legítimo, enquanto a outra entende que nem tudo o que é natural deve ser concretizado.

 

Nenhuma destas posições, por si só, nos permite concluir que uma pessoa é melhor ou pior do que a outra. Mas revelam maneiras diferentes de compreender o corpo, a sexualidade e a legitimidade do prazer.

 

E aqui, chegamos a um ponto decisivo: a pessoa pudica e moralista não é necessariamente incapaz de desejar; pode considerar que não deve permitir-se desejar, ou que não deve agir em conformidade com esse desejo.

 

Isso muda substancialmente a análise. Essa pessoa rejeita o sexo porque não sente desejo pelo outro, ou porque acredita que o sexo, mesmo quando desejado, é moralmente condenável ou impróprio naquela forma.

 

Temos duas pessoas que se dão bem em quase tudo. Uma deseja intimidade sexual e quer concretizá-la. A outra resiste, aparentemente por pudor e moralismo. Mas sabemos se essa resistência não esconde ausência de desejo, medo, convicções profundas ou outra coisa qualquer.  Não sabendo não vamos presumir a resposta. Vamos tentar descobri-la. há uma coisa que é certa, duas pessoas sentem desejo. As duas dão-se bem. Mas uma consegue aceitar e concretizar o desejo, enquanto a outra, apesar de também o sentir, fica prisioneira do seu moralismo ou puritanismo.

 

O conflito já não é necessariamente entre duas pessoas com desejos diferentes. Pode ser um conflito dentro da própria pessoa: entre aquilo que deseja e aquilo que acredita que lhe é permitido desejar ou fazer. De onde vem essa proibição interior ? Da educação, da religião, da ideia de decência, do medo de perder o respeito por si própria ? Talvez de uma mistura de tudo isso ?

 

Como pode uma pessoa sentir um desejo que considera legítimo enquanto experiência física, mas condenável quando concretizado sob determinada forma ? O desejo aparece espontaneamente; a censura interior intervém depois. A pessoa pode acabar por viver a própria sexualidade como uma luta contra si mesma. Será que essa pessoa não consegue ultrapassar a proibição ou, num plano mais profundo, não consegue autorizar-se a ultrapassá-la ? Há uma diferença entre não ter capacidade e não se conceder permissão.

 

Não devemos, contudo, concluir que todo o limite moral é uma prisão. Uma pessoa pode sentir desejo e, ainda assim, decidir livremente não o concretizar. O problema que estamos a investigar é outro: o que acontece quando existe uma vontade de avançar, mas a pessoa se sente impedida por regras interiorizadas que não consegue conciliar com essa vontade ?

 

E é aqui que o desencontro se torna particularmente intrigante: o obstáculo pode não estar entre as duas pessoas, mas entre duas partes da mesma pessoa.

 

Temos matéria suficiente para pensar sem corrermos já para conclusões.

 

Porque há uma questão que considero central nesta investigação: como distinguir uma convicção moral verdadeiramente assumida de uma proibição interior a que a pessoa obedece, mesmo desejando libertar-se dela ? Aí, começamos a entrar na psicologia profunda do desejo, da culpa e da liberdade, plano onde uma educação antiquada faz mossa, podemos estar perante algo muito interessante: a educação não se limita a ensinar-nos o que devemos fazer; pode ensinar-nos aquilo que devemos sentir acerca do que sentimos.

 

Imaginem uma criança que cresce a ouvir que o sexo é pecado, que o desejo é indecente, que uma mulher respeitável não deve demonstrar apetência sexual, ou que o prazer deve estar subordinado ao dever e à moral.

 

Mesmo quando essa criança se tornar adulta, adquire conhecimentos e passa a discordar racionalmente de algumas dessas ideias, as emoções aprendidas podem persistir.

 

A pessoa pode pensar: «Não há nada de errado nisto.» Mas, quando chega o momento de agir, sente vergonha, culpa, ansiedade ou uma resistência que não consegue explicar.

 

E aqui está o paradoxo:

 

A razão autoriza aquilo que a educação emocional continua a proibir. A pessoa deseja, mas censura-se por desejar. Aproxima-se, mas trava. Talvez até queira libertar-se, mas a transgressão parece ameaçar a imagem que construiu de si própria, de pessoa decente, respeitável e moralmente imaculada. Não significa necessariamente que seja hipócrita. Pode existir um conflito genuíno entre valores aprendidos, desejo e liberdade pessoal.

 

E há uma distinção importante: compreender a origem dessa inibição não significa que ela desapareça automaticamente. Uma regra pode deixar de ser aceite intelectualmente e continuar a produzir efeitos emocionais.

 

Mas há uma coisa que me interessa particularmente, se essa pessoa deseja e, apesar disso, não consegue ultrapassar a proibição, talvez não estejamos perante uma ausência de sexualidade, mas perante uma sexualidade que aprendeu a vigiar-se a si própria.

 

O desejo e a curiosidade poderão existir; a autorização interior para os viver é que pode faltar.

 

E deixo apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que escolhemos conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de questionar.

 

A liberdade, neste caso, não consistiria em fazer tudo o que se deseja. Consistiria em conseguir distinguir aquilo que verdadeiramente escolhemos daquilo que apenas aprendemos a temer.

 

O desejo existe; a autorização interior para o viver é que pode faltar. Deixo apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que escolhemos conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de questionar. Há uma diferença enorme entre não querer e não se permitir querer. E talvez a tragédia do desencontro esteja precisamente aí: duas pessoas desejam-se, poderiam viver algo que ambas desejam, mas uma delas não consegue conciliar esse desejo com as proibições que interiorizou ao longo da vida. O que a educação construiu, a pessoa pode nem sequer reconhecer esse desejo como uma construção. Pode senti-lo como uma verdade absoluta, ou uma proibição absoluta, uma inibição, como se tivesse nascido com ela.

 

E não basta dizer-lhe que é livre. A liberdade exterior não dissolve automaticamente as prisões interiores. Mas há algo que parece importante: compreender essa pessoa não significa culpá-la, nem significa que a outra tenha de esperar indefinidamente. Significa reconhecer o conflito e perceber que ninguém consegue resolvê-lo sozinho.

 

Talvez a verdadeira libertação comece quando a pessoa consegue perguntar a si própria: «Isto é aquilo em que acredito ou é aquilo em que me ensinaram a acreditar?»

 

Não tem de rejeitar os seus valores. Tem de poder examiná-los e decidir quais são realmente seus.

Os tabus, os preconceitos, as proibições interiorizadas, o desejo, esbarram numa barreira que a própria pessoa transporta dentro de si.

 

E há aqui outro pormenor importante: essa barreira pode ter sido construída muito antes de a pessoa conhecer aquele desejo concreto. Foi aprendida na infância, reforçada pela educação, pela família, pelo meio social ou pela religião, e acabou por se instalar como uma espécie de censura interior. Quando o desejo aparece, não encontra apenas uma possibilidade de prazer. Encontra também a culpa, a vergonha e o medo de transgredir.

 

E assim se produz o desencontro: o corpo deseja, a pessoa quer, mas aquilo que aprendeu a considerar proibido impede-a de avançar.

 

Não sabemos se é exatamente isso que acontece em todos os pormenores desta situação. Mas a hipótese que estamos a explorar é coerente. E há uma diferença entre libertar alguém das suas convicções e ajudá-lo a examiná-las. A primeira coisa seria impor-lhe uma nova regra; a segunda seria permitir-lhe descobrir se as regras antigas ainda correspondem àquilo em que acredita.

 

Porque, no fundo a questão não é obrigar a pessoa a concretizar o desejo. É perceber se ela consegue escolher livremente — incluindo a liberdade de dizer sim, mas também a de dizer não.

 

A liberdade sexual não consiste em fazer tudo o que desejamos. Consiste em não sermos governados cegamente por proibições que nunca pudemos questionar.

 

Acho que foi finalmente encontrado o verdadeiro núcleo da questão, oremos, pois tanto ela se alongou que acabei por perder o comboio e voltar somente no dia seguinte… Não foi bonita a festa, mas tenho esperanças que a reflexão tenha valido  pena…