terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

807 - O BELO AUDY Q5 GRAFITE DA NANDA ...




O AUDY Q5 GRAFITE – FICÇÃO OU NEM TANTO

 

Sim, claro, todos nós, com maior ou menor eficiência nos pusemos em campo a partir de Milfontes afim de travar o abusador, o bandido, o ladrão, tentando evitar que ele conseguisse vender o Audy Q5 Grafite da Nanda, em férias connosco, mas que o deixara nas mãos do namorado, que

 

somente agora se viera a saber, era um tratante oportunista, batido e encartado, expert em dar a volta ás mulheres, sacar-lhes tudo quanto pudesse no menor espaço de tempo e partir para outra.

 

Eu partilhara em tempos no ramo automóvel grandes responsabilidades em pelo menos duas grandes firmas do sector, tinha os meus contactos e conhecimentos, os quais se mostraram de grande valia e utilidade embora não negue que passados mais de 20 anos a coisa me tivesse custado quase os olhos da cara…. Quase quase pois nenhum dos concessionários de antanho existe hoje, as firmas mudaram a um ritmo estonteante e os responsáveis delas haviam trocado de contactos móveis senão uma, duas ou três vezes. Vocês nem imaginam a trabalheira, mas consegui !!

 

E tudo praticamente a partir da praia de Mil Fontes, através do telefone !! A técnica hoje em dia é tudo, e foi realmente tudo !! Foi montada uma armadilha ao bandido numa das muitas firmas contactadas e, quando ele apareceu de carro e papelada, e já depois de se encontrar gulosamente com a narda nas mãos, a autoridade saiu detrás do biombo e apanhou-o em flagrante, em flagrante de litro balbuciou alguém sustendo o riso. Naturalmente a papelada era toda falsificada, assinaturas da Nanda inclusive e principalmente, de modo que o malandro levou logo ordem de prisão, mais tarde convertida em prisão domiciliária e obrigação de apresentação bissemanal na esquadra da sua residência…

 

Exultámos todos, a Nanda, cujo carrito fora comprado a prestações, e portanto adquirido com algum sacrifício, não fora molestada, o carro ainda que apreendido era dela, agora era esperar que a burocracia andasse, e havia de fazer-se justiça, agora não haveria falhas, o canário estava encanado e de pulseira electrónica no tornozelo…..

 

Mérito sobretudo meu, logo ali e no momento a Nanda, chorosa, desiludida e abandonada pelo seu amor, desfeita em lágirmas, me quis agradecer as diligências convidando-me para um almoço, mal chegássemos a Évora e no novo restaurante do Degebe, o mais recente moderno e típico restaurante por aquelas bandas, encostado ao rio, com uma bela, novíssima e amimadíssima esplanada !  Casa das Migas e Petiscos se não me falha a memória.

 

Conversa para aqui conversa para ali, confessou-se ingénua e inocente em demasia para a idade, desiludida, de autoestima em baixo, sem saber para onde se virar e completamente desorientada. Ela nunca se teria sequer lembrado de desenvolver as démarches que eu meti a rodar a partir da esplanada do restaurante na praia de Mil Fontes e bla bla bla, admiradíssima com a minha prestação, lembrando agradecida o seu belo carrito, olhando para mim e confessando ser de um homem assim que ela precisava.

 

Ou seja, seria de um como eu, com o meu saber, a minha manha, e a minha experiência que ela estaria necessitada, eu ia engolindo em seco, corando a cada elogio e sem saber onde meter-me ante tanta admiração, sobretudo tão abertamente expressa, magicando como fugir àquela prisão anunciada agora que, nem ultrapassada se encontrava ainda a cruciante dor duma perda sofrida, estava há anos gozando da liberdade e do deleite da minha pacata viuvez….

 

Embora sentindo-me num pedestal, num altar, não perdi nem a calma nem o controle nem a minha habitual bonomia, ou não fosse eu de Vila Nova da Baronia. Não era eu que era especial, era ela, gentil alma inocente, que nem cria haver maldade no mundo, bla bla bla… Fui-lhe regando o pezinho, fazendo-lhe crescer a estima por si mesma, que estivesse à vontade comigo, que embora aposentado outros compromissos me ocupavam as horas semana quasi por completo, começando pelas sagradas horas do ginásio KUMA, da Susana e do André, dois experientes diplomados que me vão conseguindo manter a rodar sem ferrugem, sem chiar, com boa aparência, pouca barriga e melhor disposição.

 

Ela, a Nanda, agradeceu, disse que, contudo, iria pensar nisso, e eu fiquei marado sem saber o que teria ela querido dizer com o ir pensar nisso, mas duas horas passadas estava esclarecidíssimo…. Esclarecido e convidado para um jantar em casa dos pais dela, assim eu tivesse disponibilidade. Ter tinha claro, as aulas no ginásio são sempre de manhã, o problema era a minha aversão à coisa que ela estava preparando, pelo que um belo dia, contrariado, muitíssimo contrariado, todavia lá fui comer as febras grelhadas com salada e um verde muito verdinho e bem fresquinho, ouvindo ora a Nanda ora a mãe ora o pai, todos eles de modo unânime agradecendo a amabilidade por mim colocada ao serviço da filha que num remate binário e quando eu menos esperava declarou necessitar da minha protecção e presença, como quem confia num abraço protector, da Securitas ou de qualquer outra, e sorrindo, sempre linda, sentou-se displicentemente numa das minhas coxas, abraçando-me com sensualidade, rindo para os pais que, mais espertos que os julguei, logo ali abençoaram a ideia, me pediram que a apoiasse, que não olhariam a custos, tendo marcado e anunciado de imediato um beberete para um próximo sábado, á laia de copo de água, ainda eu não me tinha refeito da surpresa e já eles todos telefonavam aos amigos dando novas da beberete e convidando e confirmando quantos e quem nesse sábado apareceriam, a festa poderia até estender-se e continuar noite dentro na casa dela, que se limitassem a trazer as garrafas dos melhores vinhos que quisessem e lembrassem que Deus nos protegeria e daria longa vida….

 

E foi mais ou menos assim que a minha vida mudou de um minuto para o outro, hoje pau de cabeleira e segurança de uma escultural sessentona, virgem diz ela, linda, magra, uma das loiras mais inteligentes que conheço, mais parecida com uma cobra que uma cobra de verdade, dentes brancos e limpos, brilhantes, unhas de gel extremamente cuidadas,  cintura de vespa, acho eu que estou a ver mal, ainda estonteado com tudo isto, tendo fé nas aulas do ginásio para conseguir levar sempre a moça a bom porto, sorrindo, sorrindo sempre, para o meu futuro e o dela que me confundia com o pai e não me largava um minuto, eu sempre atrapalhado e meditando nos 7 chakras, no meu mantra, na minha aura, todo eu magicando em como aproveitar tanta energia positiva para me safar, estou já pensando em frequentar os banhos de cristais e tantas outras merdas que nem aprendera no meu longo tempo de vida e que noutros sentidos talvez muito me servissem para alguma coisa.

 

Aqui estou surpreendentemente infeliz, e agora sim, agora é que vou saber se a narda investida no ginásio valeu e vale ou não vale a pena, eu sinto-me confiante p’ra enfrentar as adversidades, perdão as bondades da nova situação, isto é fortuna,  sorte, e sucesso, que exigem muito controle, muita concentração e ainda mais tolerância,  isto é uma estranha sensação duma mistura eclética de  prisão e boa disposição, de alegria e satisfação anormalmente ligados a este tipo de enredo e decorrente desta nova situação….

 

O máximo de contrariedades seria não conseguir dar conta do recadado, ter que exigir do ginásio a devolução da narda extrapolada ou esportulada, coisa em que não creio nem desejo, o Audy Q5 Grafite da Nanda tem uma cor linda, a Nanda depois daqueles dias de praia tem uma cor ainda mais linda, eu estou a caminhar para a velhice e ela tem um regaço capaz de me acolher se necessário, e um peito mais que generoso para a criança em que com os anos me irei tornar…. Enfim, um verdadeiro altar, eu quero é sonhar, eu quero lá mudar de emprego agora, eu quero é sol e praia, dias risonhos, e… passear no Audy Q5 Grafite da Nanda .......... Kkkkkkkkkkkkkkkkk


Mas… Surpresa das surpresas !! Quem até aqui mais chorara baba e ranho, a Nanda, numa tão repentina quão inesperada atitude, passa a partilhar e defender toda a merda que o bandido do namorado fizera e passa a defendê-lo e justificá-lo com unhas e dentes !!

 

A malta ficou sem folgo e com menos vontade ainda de lhe dar a volta á cabeça e proporcionar-lhe uma nova lavagem, inútil, vocês já ouviram falar na Síndrome de Estocolmo ? Assim estava ela, mesmo novamente apanhadinha de todo !!

 

É que sem que ninguém desse por isso a Nanda durante a noite mantinha conversas online com o bandido do namorado, este por sua vez conseguiu incutir nela, loira claro, duvido que acontecesse com uma morena, os seus pontos de vista de vítima desta sociedade desigual, diferenciadora, não democrática, e nem imagino que mais nem quais, palavras amorosas e verdadeiras doçuras para o coração atormentado da Nanda, verdade verdadinha é que lhe voltou a dar a volta, até à próxima desgraça….

 

 Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima, neste caso a Nanda, criou uma ligação de afecto ou lealdade com o seu agressor de tal modo forte tão irracional quão paradoxal, a Nanda passou a sentir um carinho inexplicável por quem tanto a ludibriou, maltratou, condicionou e dela abusou.

 

A ciência explica esta coisa como uma estratégia de sobrevivência ditada pelo cérebro, que usa este absurdo, usa isto para se defender dum qualquer perigo extremo. Ora a Nanda apenas fora enganada, ludibriada, deixara-se embalar pela conversa da treta dele, fora ardilosamente iludida ao permitir ser enganada por um individuo sem escrúpulos cujo objectivo mais não fora que tentar e com recurso ao logro viver e beneficiar à custa da Nanda e se tudo isto, que já acontecera anteriormente com outras mulheres (e de que a Nanda tinha conhecimento) dizia eu se isto não é escarnecer e burlar não sei que lhe hei-de chamar….

 

E no meio desta novela eu ? Eu sairia sempre a ganhar, ou como segurança facturava, e daria uns passeios enquanto a acompanhava, e a consolaria nos momentos de maior fraqueza… Perdi todo esse lado bom na nova relação que se criara, do novo emprego ou nova ocupação, é certo que perdi, mas ganhei muito mais ao não ter que suportar uma Nanda incoerente, bipolar, inconsequente, irresponsável, imprevisível, e duma coisa tenho a certeza, não demorará que ela ande de novo a gritar por socorro, socorro, socorro, o que eu duvido é que ainda haja gente, haja alguém disposto a ouvi-la……

   

Ainda por cima a Síndrome de Estocolmo não é considerada doença oficial, os vários manuais que classificam a doenças, naturalmente manuais médicos e oficiais como o DSM-5 ou a CID-11, não reconhecem esta condição como um transtorno mental formal, quando muito e extraoficialmente tal desiderato é atribuído á vivência no seio de seitas.

 

Sabemos que pode acontecer a vítimas de sequestros ou de raptos, pode surgir num ambiente de relações de violência doméstica ou de abusos sexuais, tal como se tem constatado existir entre pessoas submetidas a tráfico humano ou que trabalhem debaixo de pressão, de stress, ou em ambientes de trabalho tóxicos …

 

A nossa Nanda anda somente pendurada pelo beicinho e pingando amor atrás do bandido para onde quer que ele vá, não anda doente, anda cega, anda a dormir, mas, como há 50 anos atrás os anarcas escreviam em letras vivas e garrafais nas paredes da nossa cidade, “ dormir entre lençóis de sangue vos acordará” ….. 


 202609,6,5 


domingo, 11 de fevereiro de 2024

9 /2026 / 806 - O VOO DE UM ANJO GUERREIRO ...



 
O VOO DE UM ANJO

 

O dia inteiro numa cadeira

Explorada desde sempre

Oprimida a vida inteira…

 

Paula, Paula, Paula, Paula,

alguém te deu a mão e fugiste

deu-te uma mão e tu voaste

Nas asas de um gavião negro.

 

Soltaste-te agora, acordaste

Vendo passar os senhores

Tu sonhando com riquezas

Democracia, igualdade

Viste neles fraternidade

Era indiferença, hostilidade.

 

Paula, Paula, Paula, Paula

levantaste-te e fugiste

abristes asas e voaste

No céu dum gavião negro.

 

Em terras sem igualdade

Terras onde ninguém ordena

Onde todos te perseguem

Paula, Paula, Paula, Paula,

Não perdoam veleidades

Não perdoam não perdoam

São terras do gavião negro

São céus dum gavião negro.

 

Quem ainda vive em de ti ?

Dentro de ti loira morena

O rosto dum grande amigo ?

Ele será a tua esperança

Sempre de braços abertos

Tu que nem sabes a idade

Tu a quem todos perseguem

Tu, sem amigos, fraternidade

Tu que não és loira nem morena

Foge Paula, Paula, Paula.

 

Mereces por companheira

Somente a tua vontade

Jura ter por verdadeira

Paula, só a tua vontade

E somente a tua verdade

Paula, Paula, a verdadeira.

 

Tu que não sabes a idade

Liberta-te dessa asneira

O dia inteiro numa cadeira

Paula Paula Paula, Paula,

Vive a vida á tua maneira

Foge de terras estrangeiras

Foge desse gavião negro

Voa voa ave guerreira !!!!!!!


  THE FLIGHT OF AN ANGEL... 


All day long in a chair

Exploited forever

Oppressed all my life…


Paula, Paula, Paula, Paula,

someone gave you a hand and you ran away

gave you a hand and you flew

On the wings of a black hawk.


You broke free now, you woke up

Seeing the masters pass by

You dreaming of riches

Democracy, equality

You saw fraternity in them

It was indifference, hostility..

 

Paula, Paula, Paula, Paula

you got up and ran away

you opened your wings and flew

In the sky of a black hawk.


In lands without equality

Lands where no one commands

Where everyone persecutes you

Paula, Paula, Paula, Paula,

They don't forgive whims

They don't forgive, they don't forgive

These are the lands of the black hawk

These are the skies of a black hawk.


Who still lives within you?

Inside you, blonde, brunette

The face of a great friend?

He will be your hope

Always with open arms

You who don't even know your age

You whom everyone persecutes

You, without friends or fraternity

You who are neither blonde nor brunette

Run away, Paula, Paula, Paula.

 

You deserve as a companion

Only your will

Swear to have as true

Paula, only your will

And only your truth

Paula, Paula, the true one.

 

You who don't know your age

Free yourself from this nonsense

All day in a chair

Paula Paula Paula, Paula,

Live life your way

Flee from foreign lands

Flee from this black hawk

Fly fly warrior bird!!!!!!





sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

805 - “ RECADO PARA TI, CURTO MAS FORTE…"

        
 

                   “ RECADO PARA TI, CURTO MAS FORTE…"

 

Amiga, amigo, militante, simpatizante, vizinho, conterrâneo, quem quer que sejas este recado é para ti, a quem roubaram a dignidade, ou tiraram debaixo dos pés o emprego, ou a família, ou a casa, ou o carro, ou tudo em que acreditavas, completamente tudo.

 

Este recado é para ti que acreditaste no 25 de Abril, nas patranhas de Abril, nessa abrilada aldrabada e agora te sentes enganado, espoliado, ludibriado revoltado e ofendido.

 

Este recado é para ti, que todos os dias ouves chamar democracia a esta piolheira em que transformaram a nobre nação portuguesa e, olhas à volta surpreendido com os democratas que ela deu à luz.

 

Este recado é para ti, a quem não deixam passar de precária (o) escravizada (o) mas a quem tecem loas, e de quem dizem dichotes, fazendo de ti uma empresária (o) individual com iniciativa, e empreendedora ( ). Que possivelmente serás, mas a quem nunca darão a mínima oportunidade para o provares.

 

Este recado é para ti, a quem aqueles que te escravizam devem o voto, ou pior ainda, devem a tua abstenção. A tua abstenção deixa o diabo à solta, o voto em quem não o merece faz de ti cúmplice de quem te explora, te escraviza e te rouba a dignidade. Quem elege estes falsos democratas não é vítima, é cúmplice.

 

Este recado é para ti que perdeste a fé e já não sabes em quem acreditar. Este recado é para ti, para te despertar, para te animar, porque eu estou a teu lado para lutar por ti, e por mim, a quem a censura desta democracia abafa a voz.

 

Este recado é para ti, porque só com recados e boca a boca me é permitido trazer-te uma palavra de confiança, uma palavra de solidariedade, uma palavra de esperança, uma palavra de conforto, um abraço intencional.

 

Este recado é para ti, e é um pedido meu para que passes palavra, para que digas a muitos anónimos como tu e eu que há quem esteja erguendo o estandarte da liberdade, que há quem esteja lutando contra tudo e contra todos para que a esperança de Abril se concretize e possas recuperar tua dignidade, a nossa dignidade.

 

 

 Este recado é para ti, para que voltes a acreditar;

 

 que a dignidade é possível

 

que é democracia é possível

 

que a igualdade é possível

 

que a justiça é possível

 

que a esperança está viva !!!


Este recado é para te dar um justo abraço e te jurar um compromisso. O juramento de que lutarei por ti, por nós, pelo país, pela nação, pela pátria até a libertarmos !! 

 

Até nos libertarmos !!

 

Tu, eu, todos nós num NOVO PARTIDO ! Junta-te a nós ! Junta-te à ADN !  à ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA NACIONAL a nossa e a tua força !

 

Contigo, comigo e com todos chegaremos lá, e juntos sairemos do buraco onde nos meteram !!

 

 Não estás sozinha !!

 

Não estás sozinho !!

 

Viva Portugal !!

  

Viva Évora !!

 




P.S. - ESTE RECADO É PARA TI,

 

E MUITAS E MUITOS COMO TU E EU,

 

 PARTILHA-O,

 

ABERTAMENTE OU POR MENSAGEM PRIVADA,

 

MAS PARTILHA-O, DÁ FORÇA A ESTA LUTA !!

 

OBRIGADO E UM ABRAÇÃO DO BAIÃO !!

 

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

804 - UMAS BANDEIRAS EM MINHA DEFESA ...




   Estão sempre com piadas, sempre a empurrar-me para os braços desta ou daquela, isto só pra vocês verem o suplicio que vai sendo sentar-me na mesa deles na esplanada do café… pra uma ida à praia ou uma caminhada, ou à pesca... Foi o que foi ... É o que é e continuará sendo até que eu ceda ou lhes faça a vontade ...

 

- Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

 Confesso que já nem os vou podendo aturar...


E francamente, para os satisfazer ou calar, de vez em quando digo-lhes que têm razão e que já   escolhi meia dúzia delas para sondar, digo a uns, enquanto a outros vou prometendo inscrever-me na “universidade sénior” que, segundo eles, está cheia de velhos e velhas e é para isso que essa UE serve, prá gente ir lá escolher uma que, por exemplo, não deixe cair a dentadura cada vez que ri…

 

Tudo porque fiquei viúvo há relativamente pouco tempo, quase oito anos, e lá na ideia deles tempo demasiado pra estar sozinho nesta idade dizem, e que não posso nem devo continuar sozinho, se até já caí na banheira, nem devia isolar-me, ou ainda viro um eremita e bla bla bla bla…

 

A verdade é que é raro sentir-me só, passeio imenso pela cidade, bem bonita aliás, e lá vou subindo escadas, descendo ladeiras e subindo subidas claro, diria que repetindo ad nauseam os mesmíssimos percursos que percorria há uns anos, quando o Senhor nem pensaria ainda levar-me quem levou, sobretudo do modo como levou. Ou calcorreando sozinho e meditativo os quarteirões desde casa à rotunda, dali ao BPI, até alcançar a estrada de Arraiolos e voltar pra casa … 




Diria que a minha conversão aos discípulos do Deus de Spinoza vem desses tempos, já que nunca fui capaz de compreender nem aceitar tal, pois como todos sabemos na teologia tradicional cristã, Deus não é considerado mau, a maldade e o sofrimento no mundo são-nos atribuídos em virtude ou contraponto ao beneficio do livre-arbítrio que esse Deus humanamente nos concedeu e ainda à entrada do pecado na Terra.


Mais uma vez culpa nossa, que não soubemos resistir à tentação. É ou está mais que sabido, a Bíblia define Deus como totalmente bom, justo e fonte de misericórdia. Tudo coisas, conceitos demasiado velhos, até pra mim que embora esteja na meia-idade, nem preciso descer à terra pra matar a curiosidade quanto a esses tão incoerentes quão contrastantes conceitos para os achar um absurdo destinado a iludir cegos. Se há até gente que acredita no paraíso e na vida depois da morte…

 

Como tal, ou por isso mesmo, apesar dos passeios, percursos, a que umas vezes de manhã, outras ao fim da tarde, mas muito menos p’la noitinha dou rumo, já não esbarro como dantes com ruas, ruelas e praças apinhadas de gente. A maioria dos habitantes da urbe caminham para velhos, e a maioria dos velhos ficam enclausurados em suas casas por diferentes razões. São tantos que Évora, penso eu pensando nos velhos, será o lugar onde o negócio dos "mata-velhos" tenha sido ou seja uma das melhores ideias de negócios que alguém por estes lados teve...

                                            

Para ser sincero ainda me vejo com quarenta ou cinquenta anos e já há muito concluíra não estar preparado para estas coisas da idade, nem para estas nem para ingressar na tal “universidade” dos velhos, nessa então nem pensar !!

 

Gosto de caminhadas, são sempre optimos passeios de grupo, alegres, fáceis de aturar, sempre que posso inscrevo-me numa ou noutra, como disse gosto dessas idas e vindas, e pelo sim pelo não, no verão, levo calções de banho…




 - Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

Tudo porque lá na ideia deles, e viúvo há relativamente pouco tempo não posso continuar sozinho.

 

- Tens que ir em frente ... não podes ficar parado ... 

 

Alguém de quem se espera apoio para a cura, apoio ou conforto, é indiferente, como os amigos, a bem da verdade, involuntária e inconscientemente mais não conseguem que trazer-me de volta o sofrimento fazendo-me reviver lembranças e mágoas antigas.

 

E deste simpático e empático modo mais não alvitram que ao invés de as sararem, reabrem-me as velhas chagas, porque nem toda a paixão acabou quando partiste. Saíste da minha vida mas não do meu coração, continuas comigo, pra onde quer que vá tu me acompanhas, iludido, continuamos os nossos percursos, sussurrando, ombro no ombro, como se nunca tivesses abalado, sim, é o pior de tudo, amar-te como sempre te amei e amarei.

 

 “As pessoas, e o amor que passou pelas nossas vidas são tudo aquilo que deixamos uns aos outros.” 





terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

803 - DIA DE ALMOÇO NA TAL PIZZARIA ...

 



 

O comboio bufara todo o santo caminho, mas falhara a ligação e, quando cheguei era tarde, tardíssimo, encontrar um lugar onde almoçar àquela hora seria milagre, e o milagre aconteceu, muito, muito antes de sabermos onde seria o almoço.

 

Era tarde e a calorina queimava-nos as faces, vi-a mal pus um pé fora da estação, passado tanto tempo ainda me esperava, afogueada, certamente tão cheia de fome quanto eu e, quase corremos um para o outro, quase, quase…

 

Foi o maior o mais longo e saboroso abraço da minha vida, nem sei qual dos dois tremia, se eu, se ela, se o mundo a meus pés, não sei não…

 

De caminho divisámos muitos restaurantes exibindo orgulhosamente a tabuleta de fechados, mas, passando ao fundo da avenida sentimos um aroma pairando no ar, uma pizzaria aberta, talvez ainda em limpezas. Desculpei-me com o atraso no comboio e apresentei-me como cliente mistério, cliente surpresa, cliente espião, e não tivemos problemas em sermos recebidos e servidos. 






Almoço à hora do lanche, tão tardio que nem lembro que pizza ou pizzas escolhemos, lembro, apesar de tudo, do atraso, da fome, da boa disposição dela, do sorriso dela, da alegria dela, dos olhos vivos dela, eu no céu contemplando a beleza, já sem fome alguma ainda antes das pizzas comidas.

 

Brincámos todo o almoço e brincámos com o pessoal, quando nos retirámos ficou tudo em pratos limpos, e a mentira do cliente mistério pairando no ar sem ameaças. Com graça até.

 

Eu já estava apaixonado há muito tempo, essa paixão nunca haveria de deixar-me, e não deixou, não me deixou, mas cegou-me. Então, tudo o que via era meu, tudo que desejava me era satisfeito, senti-me um rei, com todos os direitos e mordomias, fiz-me egoísta, passei a exigir, ou era como eu queria ou não era, foi quando começou a crescer entre nós um pequeno muro, depois mais alto e mais alto, coberto de hera, alimentada com o meu egoísmo, soberba, arrogância e presunção. 


Enquanto e em simultâneo me enganava a mim mesmo sendo altruísta, simpático, empático para com a minha rainha, precedendo-lhe os passos, estendendo-lhe á frente a passadeira quando ela caminhava, correndo pra cuidar do mínimo que ela alvitrasse, cuidando que nada lhe faltasse e…

 

foi assim que a matei …




Foi assim que sem dar por isso e de tão ocupado com as minhas ambições e gostos ou preferências que comecei a faltar-lhe. Eu, de tão preocupado em fazer o bem que ia deixando atrás um rasto malcuidado, eu sempre lembrando o óbvio, mas não vendo o obtuso, lembrando o acessório e esquecendo o essencial, eu de tanto que quis proteger acabei ferindo o meu bem mais precioso.


Sempre presente para todos faltei a quem mais precisava de mim, sou culpado, sei que sou culpado, não serei o único, mas sou, não procuro desculpas e somente agora tento compreender como pude chegar onde cheguei, tão longe na senda da estupidez. 



 

Pontapeio durante o caminho e enrraivecido vários monticulos de folhas que os varredores juntaram meticulosamente talvez com o fito de mais tarde as virem ensacar. Não sou mal-intencionado, nunca o fui, mas culpado sim, pelo menos meio culpado. Tão irresponsável quão indiferente, nem soube cuidar  de quem amava, quis fazer o bem acabei fazendo o mal,  estava atento, mas não ao essencial pois conhecia factos aos quais  não compreendi ou acudi a tempo. O significado, o alcance e o reflexo das minhas atitudes não eram visíveis a mim mesmo, eu não via o que devia fazer e em muitas atitudes ou procedimentos falhava no que mais importava.

 

Verdade que exigia muito de mim, mas não percebia o que ela reclamava nem tão pouco se era justo com todos. Afinal acabei sendo injusto com alguém em relação a quem me julgava perdulário, dava aos outros enquanto faltava a quem mais precisava de mim, queria poder ter acertado mas errei precisamente onde ou com quem tal não podia nem devia ter acontecido.

 

Desculpas? Não procuro desculpas para a minha culpa; procuro entender o meu erro. Volvo e revolvo esta minha confissão, esta reflexão inútil por tardia, este confronto comigo próprio, eu via, só não via aquilo que mais precisava ser visto porque o amor cega, e a soberba sobrepõe-se à ganância já que ao olhar tão intensa e somente para o que nos interessa deixamos de reparar noutras facetas dessa tão candente questão, paulatinamente volvida problema.





E, no entretanto, cegos, vamos andando correndo, destruindo aquilo que seria essencial preservar, não me estou defendendo estou a descobrir exatamente como e quando a matei…

 

É provável que, distraído, não lhe tenha dado aquilo que, para ela, seria o principal e fiquei vivendo com a consciência de a ter destruído, carregando um peso na consciência e a certeza de que muitas vezes não é a falta de amor que destrói uma relação, é a incapacidade de cuidar do amor que nela devia existir e florescer… Cuidado que cabe a ambas as partes, reciprocidade se chama essa responsabilidade…

 

 Matei o amor que vivíamos, mas não matei o amor que sinto. Perdi-a, mas não perdi o meu amor por ela. Continuar a viver com os dois factos ao mesmo tempo, o que vive e o que morreu, e isso, que era algo propriedade e responsabilidade dos dois, resume-se agora àquilo que ficou vivo ficou dentro de mim.

 

Não estou tentando transformar o crime em heroísmo. Enquanto criminoso reconheço o crime, porém o romântico em mim continua a amar aquilo que perdeu.   O alvo desse amor desapareceu da minha vida, o amor permanecerá dentro de mim.

E daqui nasce uma personagem muito mais interessante: culpado, mas não cínico; arrependido, mas não à procura de absolvição; justo comigo próprio, mesmo quando a sentença é dura; e ainda apaixonado por aquela que perdeu.

Trata-se de poetizar a minha dor, a dor do culpado, uma dor sem remissão. Ela perdeu-me; eu perdi-a; mas o meu amor por ela não morreu.

 

Talvez seja precisamente esta a minha “pena” o amor continuar vivo depois de ter destruído aquilo que o sustentava. Cabe-me agora descobrir onde está a verdade mais forte, na saudade ou no esquecimento. A ver vamos.