segunda-feira, 25 de novembro de 2024

822 - CAMÕES, O ADAMASTOR, CANTO V *



Promessas, promessas era o que me vinha atirando acima há algum tempo sem que eu acreditasse minimamente no que quer que ela dissesse. Era uma questão de confiança e eu não conseguia crer numa única palavra por ela proferida.

 

Tudo me cheirava a esturro, a falso, a fingido, daí que me controlasse e não proferisse sob nenhum pretexto, rasteira, tentação ou descuido a promessa que ela por certo teimava arrancar-me.

 

E, enquanto ela vomitava promessa atrás de promessa sabendo eu que nunca se preocuparia em cumpri-las, sustinha-me, aguentava quanto possível cedendo parcimoniosamente a tanta tentação que me rodeava porém jamais no essencial. Desistir ou fraquejar não é a minha onda nem tão pouco a minha praia.

 

A questão não era despicienda, e já se colocara a Shakespeare em “Ser Ou Não Ser” ** pois é mesmo duma questão de caracter que se trata, de formação, de educação, de personalidade, de honra.

 

A minha solidão é a minha liberdade. É verdade que a nossa civilização parece ter desbaratado ou perdido, todos os seus valores, mas ainda não comecei a penhorar os meus, nem penso vir a fazê-lo, talvez por isso por vezes pasme com o que vejo.

 

Quando acabou soergueu-se, limpou os cantos da boca com os dedos, esboçou um sorriso e sussurrou-me:

 

- Tão bom !!!!!!!

 

Depois acertou o pijama que lhe caía dos ombros, ajeitou a toalha descambada no suporte, colocou a escova dos dentes no copo e ficou minutos como que hipnotizada olhando a bisnaga ainda apertada na mão, quiçá imaginando a promessa que dela espremera e inscrita a dourado sob a marca, velha de décadas…

 

A realidade é hoje fantasiosa, irreal, virtual, desvirtuada, por isso metade do meu tempo é ocupado a interpretá-la, a descodificá-la, a traduzi-la, a desmontá-la. E é isso que faço, se a monto também, a desmonto, observo-a e reconstruo-a, com base não no que vi mas no que pensei e penso quando vi, ouvi, vejo ou oiço.

 

As coisas não são portanto como são, são como eu as vejo, as ouço ou penso, são como eu sou e, nesse item a tosca subtileza por ela usada comigo não pegou, perdeu, já que a lia, a despia, desvendando-lhe as intenções e segredos, considerando-me cada vez mais intérprete da sua manha, teia, malicia, perfídia, naturalmente defendo-me, fazendo-me de mouquinho umas vezes e de parvinho outras. Ninguém sequer imagina quão poderemos ganhar fingindo-nos de parvos, ou de moucos…  

 

Mas até a parvoíce tem limites, ela fartou-se de me aturar e, num repente, passou das promessas a torto e a direito, minuto a minuto para, numa reviravolta surpreendente dar o dito e feito por não dito, nem feito, e mandar-me à fava, cortar todas as ligações esquecendo ser nas atitudes ou actos, mais que nas palavras que encontramos a virtude e a verdade verdadeira, real.

 

Rejubilei claro, sofrera mas nunca lhe prometera guarida, os meus trabalhos tinham chegado ao fim sem descrédito ou desprestígio p'ra mim e, fosse eu Camões e teria mesmo cantado;

 

          *  Da mágoa e da desonra ali passada,

              A buscar outro mundo, onde não visse

             Quem de meu pranto e de meu mal se risse.

 

 *  "Da mágoa e da desonra ali passada, / A buscar outro mundo, onde não visse/ Quem de meu pranto e de meu mal se risse." (c. V, est.57,vv.6-8)

 

              **  Hamlet, príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, Acto III, Cena I


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

821 – PODERÁ DAR-SE SENTIDO AO MUNDO ?

 


                                          A CONDESCENDÊNCIA NO AMOR …

 

Tenho sido paciente contigo, porque o amor deve ser paciente, bondoso, porque não deve constituir inveja ou ambição, arrogância ou soberba. Não busco os meus próprios interesses, não me irrito, não guardo ressentimento pelo mal sofrido, não me alegro com a injustiça.

 

Mas regozijo-me com a verdade, tudo desculpo, em tudo creio, tudo espero, tudo suporto. Assim tenho procedido, e julgo que bem, apesar de não sentir da tua parte a mínima correspondência ou conformidade. Prezo a tua amizade, mais prezaria que o teu amor, que já conheci e senti, fosse tão verdadeiro como então o entendi e no qual acreditei mas do qual agora duvido.

 

Hoje interrogo-me, ter-me-ás amado de verdade ? Ou fui para ti um capricho que serviu e atenuou outras dores que então viveste ? Nada, nada me convence que o teu amor por mim, tão exuberante quanto desinteressado não fosse verdadeiro. Na verdade nele acreditei e ainda hoje sou capaz de o jurar. Nunca terias ido tão longe se esse amor não tivesse correspondido à verdade e a um desejo e vontade própria. Porquê agora a recusa ou contradição, melhor seria dizer oposição deste mesmo amor que te dedico e que, ao contrário do que possa parecer, em nada diminuiu, mas em muito se fortaleceu e aumentou, porquê ? Por que me contradizes há três anos de modo sistemático ? Que raiva é essa ?

 

Teimas, já por várias vezes o deste a entender e assim o percebi, em testemunhar a amizade que me tens, não somente agradeço essa amizade, como a retribuo e muito prezo. Todavia, esse tão nobre sentimento que agora acentuas e queres tornar exclusivo da nossa relação, foi, se me não engano, o primeiro a manifestar-se mal nos conhecemos, e recíproco. É sem dúvida alguma um sentimento nobre, que também me esforço por alimentar para que não percamos, e tão velho quanto o nosso conhecimento. Mas, se colocares algum empenho na memória, recordarás que em muito e há muito o ultrapassámos, fomos mesmo muito longe, tão longe quanto o amor entre nós o permitiu.

 


Esse sentimento original, a amizade, pelo menos assim o creio hoje, transformou-se, no que me diz respeito, num amor exacerbado que te dediquei e ainda dedico, o mesmo não penso já no que a ti respeita, daí a confusão de que te dou conta, daí a incompreensão que te exponho e para a qual não encontro razão de ser ou explicação.

 

E, porque eu sou aquele que conheceu uma Mulher, e a amou, e ama, exorto-te a que me compreendas e, de forma lógica, me expliques as razões do teu afastamento, do teu alheamento, da tua oposição, da tua negação à reciprocidade.

 

O amor tem razões que a razão desconhece, nem eu sei por que me apaixonei assim por ti, de forma tão arrebatadora, tão penosa e hoje incompreendida. Amo-te, e isso basta-me para me preencher os dias, agora de um modo tão doloroso, senão cruel, e que tanto me magoa.

 

Penso em ti, do levantar ao deitar não faço nem farei outra coisa senão pensar em ti, é um tormento inconcebível para quem esteja por fora da questão, e uma questão que não posso partilhar com quem quer que seja, com ninguém.

 

Prezo imenso a tua amizade por mim acredita-me, não é porém, a amizade que procuro porque essa já há muito a demos como certa. A minha amizade por ti será, no mínimo, tão grande e preciosa quanto a tua, até aqui nenhum de nós tem dúvidas ou ilusões. Que me negues um amor que vivemos, (não só eu vivi) sem que para tal me tires as penosas dúvidas que acalento é que não suporto, e mais uma vez pergunto, porquê ? E porquê a tua tão forte e tão acirrada oposição ou negação à reciprocidade ? Porquê ?

 


Perceberás assim o enorme vazio em que a minha vida se tornou, sem ti, sem esperança, sem amor e sem carinho, resta-me arrastar os dias como se outro fito não tivesse que ver passar o tempo, coisa que vai sendo para mim, e devia ser igualmente para ti, algo que nos começasse a preocupar, na medida em que, repito, se o que não vivermos, agora, talvez não vivamos nunca.

 

Sei nada mais ter para te dar neste momento que amor, carinho, felicidade e promessas, as promessas que atrás citei e penso ter, repito de novo, esperança e oportunidade de um dia, não muito tarde, cumprir, porque assim o desejo, porque sou homem de palavra, mas sobretudo porque te amo e é contigo que o quero fazer, repartir os nossos últimos dias. Não me tires a esperança, não me tires o sonho de te ter de novo nos meus braços, te abraçar, inalar o teu perfume, mimar e beijar. Preciso que me alimentes este amor e esta paixão, sem isso tudo deixa de ter significado para mim, tudo, o presente e o futuro, e tu serás decerto o meu futuro, terás que ser o nosso futuro.

 

Esta vacuidade que teimas não preencher arrasa-me, destrói-me a cada dia que passa, não aguento mais esta incerteza, não suporto mais este vazio que me sufoca, antes nada que este sofrimento atroz que me dilacera a todo o momento, com o nada, pelo menos sei com que contar.

 

Por isto, por tudo isto, sê sincera, diz-me que reciprocidade é para dividir e cumprir, diz-me que poderei contar contigo, que poderei sonhar contigo, que poderei conduzir a minha vida em direcção a ti, diz-me que temos futuro, que esse futuro é possível, porque neste momento, mais que tudo, preciso ter alguém e algo em que acreditar.

 

A esperança adquire-se, ou alimenta-se. Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de longas penitência e paciência, por vezes de uma longa espera. Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegarmos ao fim da noite, encontraremos a aurora e a felicidade.

 


A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade. Nunca se dá tanto como quando se dão esperanças. Os desejos da nossa forma de vida formam uma cadeia cujos elos são a esperança. A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade. Quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer forma de vida, quem tem uma promessa em que acreditar, e a promessa de reciprocidade é das mais importantes, pode, com relativa felicidade, esperar.

 

Todavia sem reciprocidade, ou sem esperança, nada se concretiza, nada se acalenta, morremos, estiolamos como uma flor sem água. É o que se passa comigo. Debalde o amor que te tenho, vejo a esperança fugir a cada dia que passa, e nada, nada, nenhum sinal que a alimente.

 

Que se passa na realidade contigo ? Quantas vezes me pergunto o que se passará contigo, e porque me afastas de ti quanto mais de ti preciso. Por que temes o amor, e mais precisamente o meu amor ? Que tem ele para te merecer tanto receio, tanto medo, tanta repulsa, tanto nojo ?

Tens nada, quando poderias contar com tudo, com o meu eterno e incondicional amor. Que fiz eu ? Que fiz eu que não prometer-te que sempre te amarei mesmo que o não queiras nem desejes? Por que matas em ti, e em mim, um amor que foi lindo, que para mim se tornou inolvidável ?

 

       E porquê ? Jamais compreenderei esse porquê.

 

Morre comigo, aos poucos, uma esperança terna e risonha que acalento há tantos anos, sinto-me sem forças para dar corpo a este ensejo que aos poucos tens vindo a matar em mim, sem que saiba o que fazer, sem nada poder fazer ?

 

Compreendo perfeitamente que amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama. Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo. Não ser amado é uma simples desventura, a verdadeira desgraça é não saber amar.

 


       Tenho-te por uma mulher adulta, segura de ti, de carácter forte, uma personalidade muito vincada e, embora compreenda que passaste por uma experiência medonha, marcante e negativamente avassaladora, traumatizante mesmo, a qual aceitei e compreendi, não percebo porque, passado mais de três anos, forças (ou finges) uma não recuperação que somente te prejudica e em nada te beneficia.

 

Também sofri com isso, recuperarei, faço por recuperar, só não recuperei a tua confiança. Porquê não sei. Se pretendes que me afaste de ti di-lo de vez, afastar-me-ei, para sempre se assim o quiseres, mas não me peças que me afaste quando cada vez te quero mais e mais, nem me peças que aceite ser colocado numa prateleira, a par de um outro homem que conheceste.

 

Vivo da esperança, e, neste contexto, como pensas que aceitei ouvir-te dizer que ainda tremes ao veres quem tanto te vilipendiou ? Que ainda tens dúvidas quanto ao facto de ser capaz de amar ou não, parecendo que sim, que o amor em ti ainda perdura. Creio que sim porque o senti, porque senti que amas, senti que tal é possível.

 

Sei muito bem quanto a vida tem sido para ti, em simultâneo, parada e turbulenta, ou sem uma razão para a viveres ou no alto de inenarráveis preocupações e privações medonhas que te destroem, e lamento sinceramente tais factos. Todavia, se pensares bem, não será difícil encontrar a quem atribuir as culpas. Com um sentido de oportunidade que não posso deixar de considerar infeliz, é precisamente quando mais alimento esperanças e sonho com o futuro a teu lado, com o facto de poder um dia passear contigo de mãos enlaçadas ou de braço dado, na tua terra, apresentar-te aos amigos e conhecidos como namorada, noiva, ou chamar-te perante todos minha esposa, ser precisamente nesse momento que me atiras à cara com os mais desoladores miminhos, a indiferença e o alheamento. Só tu, simplesmente tu. Arrogante, altiva, insolente e presumida…

 


Não há palavras no mundo que expressem a dor deste amor desfeito, o momento de ruptura, o tamanho da dor vazia e surda que me rasga a alma e paralisa a vida. O chão cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole-me. A dor anímica é lancinante. E choro. No travesseiro, solitário, no chão, no banho. Parece não ter fim na nossa mente, nãpo se sumir dela a pessoa culpada deste amor desfeito, não há o menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na escuridão não há caminhos, só estagnação.

 

O amor desfeito não leva somente o corpo que me dava alegria. Leva a alma que passeava de mãos dadas com a minha  durante os pensamentos, os planos futuros. Leva um pedaço da história da vida que parece não ter modo de voltar. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do mundo. Estou órfão de amor. Estou com um amor desalmado, pedaços meus estão ficando para trás e não posso fazer nada.

 

Estou impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e dispensável. O amor desfeito olha para mim e diz: “Pronto, fiz a minha parte na tua vida, dei o meu contributo”, e lembra-me que percorreu a parte da sua estrada no meu caminho. Por isso não posso odiar o amor desfeito. O amor desfeito deve ser amado pelo mundo que me mostrou, pelos espaços que me abriu, pelos sonhos que desenhámos juntos. Este amor desfeito tem os seus feitos registados no livro universal do amor. As coisas ruins, bom...essas esquece ! As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela pizza, aquele dia, aquele perfume, aquele beijo, aqueles momentos... Como era perfeito o amor desfeito.

 

Terminando e deixando as pieguices, o essencial é que te mantenhas sempre uma pessoa digna, em relação a ti, em relação à tua família, e, desejo-o ardentemente, em relação a mim, porque te conheço, porque te amo, porque quero alimentar os projectos que em relação ao futuro nunca porei de parte inda que já nem acredite neles.

 

Tudo isto porque quero acreditar que me amaste como eu te amei, e tanto te amei, e amo, que compreendi e perdoei uma acção na qual não intervi, para a qual não colaborei e acerca da qual, dada a brutalidade do corte que então impuseste, nem tempo tive para te pôr de sobreaviso.

 

Humanamente discorrendo, há coisas que só aprendemos depois de por elas termos passado, a experiência é a soma dos nossos erros. Jamais desesperes, mesmo perante as mais sombrias aflições da vida, pois das nuvens mais negras poderá cair água límpida e fecunda.

 

Nunca serás uma mulher acossada pela indiferença, em primeiro lugar porque, quer queiras quer não, estará aqui sempre um homem que te ama, em segundo lugar porque a beleza que te anima nunca deixará ninguém indiferente à tua presença.

 

Deus sabe quão grato Lhe estou por ter-te conhecido e amado.

 



sábado, 21 de setembro de 2024

820 - OS SÃOS BENEFÍCIOS DAS CAMINHADAS...


         OS SÃOS BENEFÍCIOS DAS CAMINHADAS

 Sou um acérrimo defensor dos benefícios e praticante de caminhadas. Por razões que se prendem com a idade e com a manutenção física que tal exige encontrei nas caminhadas não só o exercício físico ideal como um óptimo processo de manutenção em boa forma evitando a ferrugem precoce e a prisão das dobradiças.   


Estava eu há minutos cuscando a página do grupo de caminheiros a que me orgulho de pertencer quando deparo com estas pérolas:

“Estes são alguns dos benefícios das caminhadas, chegares aos 77 anos com esta agilidade”.

“Parabéns a todos os caminheiros deste grupo onde alguns já ultrapassaram a fasquia dos 70”.

Não que as afirmações proferidas não sejam verdadeiras atenção, são-no e bem ! Todos os que andam enfronhados nesta prática sabem perfeitamente que a mesma mantém a saúde e nos protege essencialmente de doenças cardiovasculares ao ajudar a controlar a pressão sanguínea. Caminhar é um factor de protecção contra derrames cerebrais e enfarte. Os vasos sanguíneos ficam mais elásticos e mais propícios a dilatar quando ocorra alguma obstrução.


São variadas e manifestas as vantagens para quem faz caminhadas, vou listar algumas delas sem me alongar, depois cada um de vós poderá ir ao Google e inteirar-se melhor acerca de cada, ou de todas.

1.Melhora a circulação e o desempenho sexual.

2.Deixa o pulmão mais eficiente, aumenta a caixa torácica

3. Combate a osteoporose e enrija ossos e mentes.

4. Afasta a depressão e o mau-olhado.

5. Aumenta a sensação de bem-estar e o prazer…

6. Deixa o cérebro mais saudável e inteligente

7. Diminui a sonolência e os bocejos

8. Mantém o peso em equilíbrio e emagrece

9. Controla a vontade de comer, o pecado da gula...

10. Protege contra derrames e infartos

11. Ajuda a evitar, a combater e a controlar a diabetes

Estes são os benefícios mais correntes e visíveis, e até os que em pesquisas apuradas mais vezes nos surgem, porque há outros, menos visíveis, menos falados, mas há.  




Falo por mim visto tratar-se de benefícios extra que nem toda a gente colherá ou necessitará, de qualquer modo julgo pertinente deixar-vos aqui a informação, o saber nunca ocupa lugar e quem saberá, quiçá, se alguns de vós não partilharão em segredo a revelação que agora vos vou deixar.


É que cedo comecei a aperceber-me dos benefícios das caminhadas, em especial dos que serão muito pouco falados, compreende-se, são assuntos domésticos, causas e coisas que ninguém gosta de abordar em público, são aspectos que eu colocaria ao nível ou em paralelo com os designados segredos de alcova. 



Mas já chega de paleio, devem estar todas e todos mortinhos por saber quais os benefícios e em que condições eu tiro deles partido, o que não será difícil de adivinhar atendendo a que todos conhecemos o saudável cansaço com que no fim da caminhada recolhemos a casa. 



A minha Carolina sabe de antemão que durante os dois ou três dias seguintes nem precisará de se esconder, sabe de antemão que não estarei em condições de a procurar e a gaiatagem tira folga. Tenho que admitir, chego saudavelmente cansado mas bem-disposto e, confesso, desde que há meia dúzia de anos comecei com as caminhadas nunca mais necessitei tirar o cinto nem de mandar umas lamparinas bem dadas a quem estivesse a precisar delas. 



Portanto acrescentem aí na listagem de benefícios os psicológicos, a caminhada preenche e ocupa o cérebro, dá uma sensação de bem-estar que aumenta os níveis de tolerância e diminui a irritabilidade e tendências para formas de expressão violentas, por outras palavras, traz paz a casa e a mim a confortavel certeza de que chegarei a velho com todos os dentes na boca.



Portanto amigas e amigos, caminhem, caminhem, andando andando, metam-se a andar antes que me passe a paciência que ha mais de três meses que não faço uma marchinha e estou pelos cabelos…. Desviem-se, saiam da minha frente e nem pensem em contrariar-me !!!!!!   




Desviem-se, saiam da frente !! Nem pensem contrariar-me !!   










 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

819 - A GRUTA OU CAVERNA DE ALI-BABÁ ...

                                                                                     


Toda a gente a conhece, de ouvir falar, das histórias de encantar, das fábulas de Mil e Uma Noites, mas poucos saberão onde se situa, se ainda existe ou se é possível visitá-la.

 

Visitei-a há pouco pela quarta, quinta ou décima vez e, como sempre valeu a pena. Valeu a pena por vários motivos, é uma gruta mágica onde sempre entrei e me senti como num lugar de encantar e, inda que nunca me tenha demorado, o lugar é propenso a impressionar-nos solenemente sob várias ou múltiplas perspectivas, a extasiar-nos e, comigo sucede frequentemente, proporcionar-me um clímax inexplicável e que outras situações, idênticas ou muito parecidas, incompreensivelmente não me fazem sentir, atingir ou viver.

 

Gosto de entrar com calma, nada de impetuosidade, é lugar para se estar, para apreciar, não para viver ou ver de passagem ou de corrida, se bem que, mal me aproxime da entrada fique tenso, hirto.

 

Não só essa gruta me provoca esse efeito, ficar tenso, hirto, como o mesmo se torna quasi condição obrigatória para entrar. Nada de brincadeiras, a coisa é séria e se a queremos relembrar mais tarde será bom que assim seja levada, a sério e com intensidade, com o deslumbramento e o gozo que a situação oferece e permite.

 


Perante tal encanto ou fascinação a minha sedução é sempre total, e fico boquiaberto cada vez que, ao contrário de Ali-Babá e do “Abre-te Sésamo”, me bastar sorrir p'ra que não uma pedra, um rochedo, uma rocha, mas duas, se abram de par em par para que, contemplativo e agradecido aos deuses acorde da mítica visão digna das Mil e Uma Noites para uma realidade cujo sonho não consigo suportar.

 

Abre-se docemente em duas essa gruta e eu, timidamente mas com galhardia penetro-a, de olhos fechados sendo como melhor nos orientamos na escuridão, sentidos alerta, a sensibilidade afinada tanto quanto a sensualidade e, como num arame, num trapézio ou na crista de uma onda, tentamos aguentar-nos o máximo possível para que o cume da felicidade seja atingido.

 

É uma experiência inolvidável a entrada nesta gruta, sobretudo quando não tivemos que dar um passo para a descobrir, antes nos foi oferecida, portanto descoberta e fruída por convite pessoal.

 


Amigos, não procurem nos folhetos nem em agências de viagens, como eu vos disse, a esta gruta só se acede por convite e a cada um de vós que tal convite for feito, não façais como Ali-Babá, e não conteis a ninguém o segredo dessa gruta sob pena de passardes pelas vicissitudes trabalhos e dores que Ali-Babá passou e, porventura dificilmente conseguir após muitos trabalhos sair deles com a mesma sorte de Ali, esse personagem mítico das Mil e Uma Noites.

 

A caverna de Ali-Babá é assunto para fruir e calar, ou como nós por cá dizemos, para comer e calar. Nunca vos esqueceis que boca calada é o melhor, prove, deguste, aprecie, vá até ao fundo da bilha, digo da garrafa, seja feliz e repita sempre que possa, não há limite nem lugar mais aprazível, mais macio, não há lugar onde o mito, a fruição do tabu derribado e a sensação de posse total, de tudo, da felicidade, o deixe mais agradado e em paz consigo mesmo.

 


                   Creia-me, ganhará anos de vida !!




                      Há sempre gente do contra ... 😧😧😧😧

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

818 - TELHEIRO - "O ROUBO DO SANTO" …

         

 

Ontem, foi mesmo já noitinha que fui atraído ao Telheiro, uma aldeia pitoresca no sopé do monte que Monsaraz ocupa. Uma caminhada nocturna prometida e publicitada pela CMRM inserida nas festas anuais do Telheiro convenceu-me, até por ter afinidades com essa aldeia há mais de sessenta anos.

 

Dez da noite e aqui estou eu, apresentei-me, com o meu habitual e colorido bordão, calção claro, ténis à maneira, o vistoso camisolão azulão dos não menos vistosos, famosos e omnipresentes Caminheiros de Monsaraz, tal qual me podem ver numa das fotos, encostado à direita dela e um pouco desfocado. Essa caminhada nocturna representou para mim mais que o episódio do “roubo do santo”, tradição curiosa cujos link podem consultar no fim deste texto.

 

Tinha-vos prometido ontem ainda dizer-vos alguma coisa mais sobre essa caminhada / procissão, tinha prometido que vos contaria como, mais que a procissão/caminhada, o lugar, a ermida de S. Sebastião me sensibilizou.

 

Sendo eu natural de Monsaraz já conhecia o lugar, junto dessa ermida a minha avó Inácia Ferrador, e meu avô Palma naturalmente, criaram os mais de treze filhos e filhas que deram a este mundo, minha mãe, tias e tios, muitos deles e delas tendo partido dali somente para casar.

 

Não conheci a ermida por esses tempos, viria a conhecê-la muito mais tarde, teria eu quatro e tal ou cinco anos. As mulheres tinham descido a chapada até ao Roxo, umas para caiar a ermida, outras p’ra lavar e estender os lençóis a corar sobre a erva depois de lavados, enquanto a gaiatagem, eu e outros que já nem recordo, deambulávamos por ali e tudo nos servindo de entretém. 

 


Era comum nesses tempos avistarem-se lá em baixo no roxo, lavadeiras e roupa estendida corando sobre as flores que atapetavam os campos em redor, a ermida ficava a poucas dezenas de metros, uma centena talvez. A partir daí, nós putos, como lebres galgávamos a distância até à estrada nova, novinha, que se estava fazendo do Telheiro a Reguengos e quedávamo-nos embasbacados olhando a imagem que o futurismo gravava nas nossas mentes.

 

Cintilando num emblema dourado e estampado na lateral do cilindro verde que espalmava a estrada preta, uma inscrição a vermelho vivo que alguém nos disse ser "Coolfield Road Roller", gravado no flanco desse monstro, um cilindro bufando e gemendo sempre que lograva mexer-se, e que depois, enquanto as obras duraram passámos a contemplar do alto da vila, dia a dia, vendo a estrada crescendo e estendendo-se em linha recta e a perder de vista.

 


Deveríamos andar por 1969 ou 1970, lembro-me porque nesse ano de festas deixei de ver a estreia de Easy Rider, um filme famoso, com Peter Fonda e Dennis Hopper contando a história de dois motards (eu já era então um pequeno motard) percorrendo o sul e sudoeste dos EUA em busca da liberdade pessoal, pois nesse sábado toda a família estava já embarcada em Monsaraz e me esperava a todo o momento. 


Era o tempo da semana inglesa e eu trabalhara até à uma da tarde, depois enfiara-me na carreira até terras d’el-rei, dali em diante à boleia com um padre, num velho Ford que não passava dos setenta e me deixou quase a uma légua do Telheiro. O padre, curioso, indagou que fazia eu ali especado à boleia e, quando lhe disse que ia para a tourada em Monsaraz soltou um grotesco;


- Paganismo !


pelo que aprendi nesse dia uma palavra nova. Talvez que, se lhe tivesse dito ir para a procissão do Senhor dos Passos, no Domingo, me tivesse louvado e levado até lá mesmo acima… Devia ter amigos e petisco à espera dele no Bizaca pois cortou por uma estrada de terra em direcção à Barrada. 


Não me atrapalhei, meti a direito, passei ao lado da ermida de S. Sebastião (desde essa recuada data que nem perto dela estivera), subi a chapada, a três quartos dela comecei a ouvir a orquestra da artística animando a festa e, a cada pasodoble eu enchia-me de coragem e acelerava o passo, percebendo já a arena numa maré cheia e a entrada de quaisquer touros na corrida. 


Quando finalmente na vila ouvi a banda apelando à morte do touro na arena, já nem a coisa me impressionou, estava estourado, tinha as pernas cansadas mas um rasgado sorriso na cara. Tal qual ontem à noite quando o assalto à ermida acabou e já estava toda a gente no terreiro detrás da escola primária do Telheiro, o santo roubado metido a recato e o pessoal da trupe desmobilizando, dispersando, como na tropa.

  

A aldeia do Telheiro não me foi nunca desconhecida ou mero local de passagem, ali viveu o meu tio Tonhico Ferrador, inda ontem passei frente à casa que fora dele, com um alto e comprido portado à frente e de onde tantas vezes parti pra o Outeiro, sozinho ou com o Tio Domingos Papa-Agulhas, que se amancebara com a minha querida tia Aia. Era com eles que eu passava sempre uma, duas ou três semanas de férias no pino do verão.

 

Cresci muito nesses anos e nessas férias passadas em família, quer no Outeiro quer em Monsaraz, e em que o fogo-de-artifício estoirava mais forte que em qualquer outra vila ou aldeia em redor (incluindo a do Telheiro), festas em que num baile do varandil conheci a “Gafanhota”, a minha primeira paixão e que havia de suscitar em mim p’la vida fora mais interrogações que paixões.


Igualmente me foi turbulenta a eclosão da barba e a adolescência, prenhe de dúvidas, parca de certezas. Curou-me a légua a que distava dali a ribeira da Guadiana, a rapaziada amiga que em cada verão me acompanhava nas brincadeiras e esqueci (desculpai-me, eu era demasiado novo e o tempo de férias não ultrapassava duas ou três semanas), a caça com fisga ou armadilhas, os ninhos, o cansaço desses percursos tantas vezes palmilhados, mas também esses novos horizontes tão mas tão diferentes da cidade, a liberdade de movimentos e os mimos da tia Aia ou da avó Inácia.

 


Lembro ainda o Telheiro, eu com uns quatro anitos, num dia em que com a tia Fina e a tia Bia fui esperar a camioneta da carreira em que a mãezinha, muito branca, chegou vinda da operação ao coração, em Coimbra, sim mãezinha tive saudades, e medo, sim mãezinha eras linda como até hoje não vi, e de ti recordo-me, não me recordo é de um fim de festa como o de ontem, em que nem uma prece, uma oração, uma historieta, um discurso, uma explicação.

 

O cortejo, a multidão, a procissão/caminhada terminou como começara, como uma lagarta nas couves, sorrateiramente, e assim eu próprio fiz, meti-me no carro e dei-lhe gás e festa, um CD a preceito, o volume em alta, nem dei por ter chegado a Évora.

 


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https://www.cm-reguengos-monsaraz.pt/locais/ermida-de-sao-sebastiao/