quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

801 - FENOMENOLOGIA, UM LONGO ESTUDO ...




Quem estivesse espreitando por cima do meu ombro não entenderia patavina acerca do que a Katy me interrogava num e-mail e, ainda menos da resposta que eu dera à sua questão,

 

Ela - então como correu a festa ?

 

A festa a que ela aludia de imediato me trouxe à memória o primeiro verso da primeira versão da canção TANTO MAR de Chico Buarque De Hollanda, e digo a primeira versão da dita canção por a grande maioria  do pessoal desconhecer haver uma segunda escrita uns anos mais tarde.

 

  Enquanto uma começa "QUE BONITA A TUA FESTA PÁ" a segunda, cantada passados alguns anos, confirma a evolução do tempo e das circunstâncias pois começa deste curioso modo: " ESTRAGARAM TUA FESTA PÁ "…

 

  Em qualquer dos casos o refrão mantem-se, "TANTO MAR, TANTO MAR " entre ele e nós, daí que não tendo eu conseguido afastar entre mim e ela, fê-lo uma outra também metida na conversa, e que não a Kathy a aniversariante, pois lhe respondeu em linguagem telegráfica: "Mula continua teimosa STOP de resto tudo normal STOP estamos festejando na Taberna do Centenário STOP sitio onde comemos há anos o primeiro almoço STOP será este o último ? STOP o que fecha o ciclo ?? STOP só Deus sabe STOP cumprimentos STOP”, referindo o facto de as pretensões diplomáticas no cerne da festa, ou do aniversário da Camila não terem tido até ali quaisquer resultados, qualquer sucesso, nem disso haver sequer a mínima sombra.

 

Entre mim e ela, Kathy, continuava existindo um oceano, que é como quem diz, tanto mar, tanto mar, ou uma distância incontornável quanto a qualquer entendimento mesmo que aproximado.

 

A “festa” foi o aniversário da Kathy, para o qual fui convidado tendo-o abordado sob o manto da capa e espada da espionagem pois foi sob esse pretexto que me propusera ir à “festa”, onde nos encontrámos para decidir do nosso futuro, isto é, se ficaríamos ambos sob a protecção do mesmo meridiano, ou quem de nós se deveria ou teria que deslocar 370 léguas para leste ou para oeste do meridiano de referencia.               

 

Se querem saber como entre nós ficaram as coisas diria que as partes ficaram cada uma de seu lado do paralelo 38, irredutíveis, teimosa e estupidamente irredutíveis, enfim, burrada para durar já que uma das partes, mais próxima do Circulo Polar Ártico, parece ter congelado no tempo e não ver a situação actual, as necessidades futuras impostas pela idade etc etc etc ... Já a parte contrária, talvez porque a sul e mais chegada ao Equador, debitou bom senso, discernimento, prudência, e demonstrou possuir uma boa intuição da situação que apresentou num cocktail equilibrado, ajuizado, prenhe de circunspeção.

 

Embora o diálogo tenha sido diplomaticamente atencioso nenhuma das partes se deixou seduzir pelos argumentos da outra, o que deixa em aberto a possibilidade de exclusão, afastamento, esquecimento e guerra, nesta parte do campeonato não creio que a coisa venha a deixar saudades, derivando do facto de as posições assumidas, irredutíveis em áreas cruciais como a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo não terem tido solução.

 

Como abordar a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo ? Duas questões que parecem diferentes, talvez se encontrem num ponto muito íntimo da condição humana: o que damos de nós ao outro e o que acontece entre duas pessoas quando os seus corpos, os seus desejos e as suas interioridades se encontram.

 

Vamos devagar, porque cada uma destas questões merece espaço para respirar.

 

1. A reciprocidade — a difícil arte de dar e receber, aqui devemos começar por uma pergunta: Quando damos, damos algo realmente ao outro ou cedemos também à imagem que desejamos que o outro tenha de nós ?

 

Parece uma subtileza, mas não é.

 

Podemos amar alguém e desejar a sua felicidade sem exigir nada em troca. Contudo, mesmo nesse amor aparentemente desinteressado, pode existir uma expectativa silenciosa: a de sermos reconhecidos, compreendidos, valorizados ou, simplesmente, amados, mais, sermos amados como gostaríamos e quereríamos. Não significa que o nosso amor seja falso. Significa que somos humanos.

 

Vejo três dimensões na reciprocidade:

 

A reciprocidade material: dou-te alguma “coisa” e tu dás-me alguma “coisa” idêntica. É a dimensão mais facilmente mensurável.

 

A reciprocidade afetiva: dou-te atenção, ternura, desejo, tempo e disponibilidade; espero que também me reconheças como alguém importante na tua vida e retribuas do mesmo modo.

 

A reciprocidade existencial: permitimos que o outro nos transforme e aceitamos a responsabilidade de também o transformarmos. Já não se trata apenas do que cada um recebe, mas daquilo em que ambos se tornam.

 

É nesta terceira dimensão a questão mais interessante. Porque a reciprocidade exige que ambas as partes reconheçam a existência, a dignidade, o gosto, as preferências e a importância da outra. A igualdade dos sentimentos implica a identidade e similitude dos sentimentos em relação a….

 

Podemos amar de maneiras diferentes. Podemos até amar com intensidades diferentes. A questão decisiva é saber se um deles acaba ou não por se tornar apenas o destinatário dos sentimentos de quem dá.

 

E há aqui um paradoxo: podemos dar muito e receber pouco sem sermos necessariamente vítimas; mas, se dermos continuamente à custa da nossa própria dignidade, o amor pode converter-se numa forma de abandono de nós próprios.   A reciprocidade é uma contabilidade sentimental. Mas também pode ser uma conta permanentemente paga por uma só pessoa, o que é de todo errado.

 

2. A metafísica do sexo — o corpo como lugar de encontro.

 

Aqui, entramos noutro território. Começaria por distinguir três coisas: o sexo como acontecimento físico, como experiência psicológica e como experiência de significado emocional.

 

No primeiro plano, temos os corpos, o desejo, a excitação, o prazer, o acto sexual puro e isolado de sentimentos.

 

No segundo, temos a história de cada pessoa: as suas memórias, inseguranças, fantasias, necessidades, medos e expectativas.

 

No terceiro, surge a pergunta metafísica:

 

Quando dois corpos se encontram sexualmente, encontram-se apenas dois corpos ou acontece alguma coisa que ultrapassa a materialidade desse encontro ?

 

Não precisamos de recorrer ao sobrenatural para reconhecer a profundidade da pergunta.

 

O corpo não é um objeto que possuímos separado de nós. É a nossa maneira de estar no mundo e de nos tornarmos acessíveis aos outros. No encontro sexual, essa acessibilidade pode atingir uma intensidade singular.

 

Por instantes, podemos sentir que as fronteiras entre o eu e o outro se tornam menos rígidas. O outro deixa de ser apenas alguém que observamos exteriormente e passa a participar numa experiência que construímos em conjunto.

 

Mas atenção: a proximidade física não garante proximidade interior.

 

Duas pessoas podem ter relações sexuais sem estabelecer uma ligação afectiva profunda. E duas pessoas profundamente apaixonadas podem experimentar a sexualidade como uma forma de intimidade que não se esgota no prazer.

 

É por isso que eu não confundo sexo com amor, nem os separaria necessariamente. O sexo pode ser prazer, descoberta, comunicação, afirmação, fuga à solidão, procura de validação ou expressão de amor. Por vezes, reúne várias destas coisas.

 

A dimensão metafísica aparece quando perguntamos o que significa, para cada pessoa, entregar-se e receber o outro. O corpo pode dizer «desejo-te» sem dizer «amo-te». Mas também pode dizer «amo-te» de uma maneira que as palavras não conseguem reproduzir.

 

E talvez seja esta ambiguidade que torna a sexualidade tão poderosa e, por vezes, tão dolorosa. Porque duas pessoas podem participar no mesmo acontecimento físico e viver ou não acontecimentos interiores completamente diferentes. Uma pode sentir que partilhou algo irrepetível. A outra pode sentir que viveu um momento agradável(ou desagradável), sem que isso altere o lugar que a primeira ocupa na sua vida. O encontro foi o mesmo. O seu significado foi ou não foi.

 

3. Onde as duas questões se encontram:

 

É aqui que eu juntaria a reciprocidade à metafísica do sexo.

 

Imaginem duas pessoas que se desejam. Cada uma leva para o encontro o seu corpo, mas também a sua história, as suas expectativas e a sua maneira de amar. Cada uma procura alguma coisa, mesmo que não saiba exatamente o quê. E cada uma oferece alguma coisa, mesmo que não tenha consciência do que está a oferecer.

 

A questão fundamental passa a ser esta:

 

O que acontece quando aquilo que uma pessoa pensa estar a dar não corresponde àquilo que a outra pensa ou deseja receber ?

 

Uma pode oferecer prazer e acreditar que ofereceu amor. A outra pode receber amor onde apenas existia desejo. Ou ambas podem amar, mas atribuir ao encontro significados diferentes.

 

Não há necessariamente mentira nem maldade. Pode haver apenas uma assimetria profunda entre duas interioridades.

 

E é aqui que a reciprocidade deixa de ser uma simples troca: torna-se um problema de reconhecimento. Não basta perguntar se ambos participaram. É preciso perguntar se ambos compreenderam, respeitaram e acolheram, dentro dos seus limites, o significado que o encontro tinha para o outro.

 

O sexo pode unir corpos sem unir projetos de vida. Pode criar intimidade sem compromisso. Pode também tornar-se uma linguagem através da qual duas pessoas se reconhecem e se transformam mutuamente. Talvez a sua dimensão mais profunda resida precisamente nesta possibilidade: um encontro entre dois seres que nunca conseguem conhecer-se inteiramente, mas que, por instantes, podem sentir que se aproximaram do mistério um do outro. O sexo aproxima, gruda-nos.

 

E deixo uma última reflexão:

 

Há uma diferença entre possuir o corpo de alguém, ser desejado por alguém e ser verdadeiramente acolhido por alguém.

 

São três experiências distintas.

 

O desejo pode fazer-nos sentir escolhidos. A intimidade pode fazer-nos sentir próximos. A reciprocidade pode fazer-nos sentir reconhecidos. A reciprocidade engloba as três experiências ainda que nenhuma das outras experiências garanta automaticamente a reciprocidade.

 

E talvez uma das grandes questões da existência humana seja esta: como podemos aproximar-nos profundamente de outra pessoa sem a reduzirmos às nossas necessidades, sem nos reduzirmos às dela e sem confundirmos a intensidade de um momento com a verdade de uma relação plenamente fruída por ambos ?

 

Uma pergunta sobre sexo, é também uma pergunta sobre liberdade, alteridade, amor e solidão.

 

A reciprocidade: dar, receber, esperar ou ficar em dívida afetiva quando dar o corpo significa coisas diferentes para cada pessoa, perdendo o outro, a liberdade e o sentido da troca, sentindo fenecer o desejo, as emoções, expectativas e vínculos, já que sem reciprocidade eles dificilmente ou nunca se criam. A reciprocidade existencial, íntima é que tudo ou quási tudo significa na vida concreta de duas pessoas, ou o máximo que conseguem é encontrar-se nos corpos, mas desencontrar-se nos sentimentos. Uma chega onde a outra nunca esteve. Uma permanece onde a outra já partiu. Uma atribui ao encontro um significado que a outra não reconhece.

 

E o mais perturbador é que ambas podem ter vivido sinceramente aquele momento. Não é obrigatório que uma tenha mentido para que a outra tenha sofrido. Talvez o desencontro mais doloroso aconteça quando duas pessoas se encontram fisicamente, se tocam intimamente, mas não coincidem no significado que atribuem ao que viveram.

 

E aqui regressamos à reciprocidade: eu posso dar-te algo que considero precioso, mas não posso decidir por ti o valor que lhe atribuis. Posso desejar que o nosso encontro nos transforme a ambos, mas no final não posso determinar a transformação que ele produzirá em ti ou em mim.

 

Há, porém, uma nuance que me parece essencial: desencontrar-se não significa necessariamente que não houve encontro. Pode ter havido intimidade verdadeira, ternura verdadeira, desejo verdadeiro. O desencontro pode estar naquilo que cada um esperava, naquilo que cada um compreendeu ou naquilo que cada um estava disposto a construir depois. O desencontro pode estar nas expectativas, evidentemente goradas.

 

Talvez o drama humano não seja apenas o de não conseguirmos chegar ao outro. Talvez seja também o de chegarmos até ele, tocarmos algo de profundamente humano, e descobrirmos que aquilo que aconteceu em nós não aconteceu da mesma maneira nele. Este assunto é extraordinariamente interessante: por que razão duas pessoas que se encontram sexualmente podem desencontrar-se humana, afectiva ou existencialmente ?

 

Começaria por uma hipótese: o desencontro pode nascer não daquilo que separa duas pessoas, mas daquilo ou da expectativa que cada uma leva para o mesmo encontro. Duas pessoas podem desejar-se sexualmente, mas desejar coisas diferentes através do sexo.

 

Uma procura prazer. A outra procura intimidade. Ou uma quer uma experiência; a outra não participa apesar de ambas esperarem o princípio ou a continuação duma relação. O corpo pode ser o mesmo território, mas os destinos são diferentes. E nenhuma das duas coisas é necessariamente ilegítima. O problema surge quando as expectativas não são reconhecidas ou são deliberadamente torneadas ou não realizadas.

 

Resultado ?  Atribuição de significados diferentes e a entrada numa dimensão mais profunda. Para uma dessas pessoas, o sexo pode significar entrega, confiança, exclusividade ou amor. Para a outra, pode ser uma experiência intensa, mas circunscrita àquele momento e gorada pelo não cumprimento da reciprocidade ou das expectativas que para o encontro levava.

 

Ambas podem sentir prazer ainda que isso possa ser duvidoso. Ambas podem estar a ser sinceras. E, no entanto, podem sair do mesmo encontro com interpretações radicalmente diferentes daquilo que viveram. O acontecimento é partilhado; mas o significado não é necessariamente comum, do que sobra uma assimetria dos sentimentos, uma pessoa pode amar mais do que a outra. Ou pode estar emocionalmente mais disponível, mais envolvida, mais preparada para assumir as consequências da intimidade, a outra foi olvidada, criou-se uma dificuldade: não existe um instrumento que meça o amor e permita comparar duas pessoas. A assimetria resultante revela-se sobretudo nas atitudes, nas escolhas, na disponibilidade e no valor ou expectativa da continuidade que cada um passa a atribuir à relação.

 

E que um deles possa nem se aperceber pode produzir uma situação dolorosa: aquilo que para um é central na sua vida pode ser apenas periférico na vida do outro. Ora a incapacidade de reconhecer o outro é porém especialmente importante e acarreta o risco dessa incapacidade se tornar um instrumento, neste caso negativo, dessa própria experiência. Não significa que não exista afecto. Significa que o afecto pode coexistir com uma compreensão insuficiente da pessoa que temos diante de nós. Podemos estar intensamente interessados em alguém sem estarmos verdadeiramente disponíveis para essa pessoa.

 

O medo da intimidade e o pudor faz com que haja quem deseje aproximar-se e, quando a proximidade acontece, sinta necessidade de se retrair ou afastar. A intimidade pode despertar receio de dependência, de perda de liberdade, de rejeição ou exposição emocional. A pessoa aproxima-se porque deseja; afasta-se porque teme as consequências daquilo que deseja. Isto pode contribuir para relações de aproximação e afastamento, embora não devamos presumir que todo o afastamento resulta de medo. Por vezes, a pessoa simplesmente não quer continuar.  As histórias pessoais são diferentes, ninguém chega a um encontro inteiramente vazio, levamos connosco experiências anteriores, conceções sobre o amor, expectativas, aprendizagens, inseguranças e maneiras diferentes de compreender o sexo.

 

O que para uma pessoa é natural pode ser profundamente significativo para outra. O que uma considera uma demonstração de carinho pode ser entendido pela outra como uma manifestação inabitual de desejo.

 

Não vemos apenas o que acontece: interpretamos o que acontece através da nossa história e a falta de comunicação ou a comunicação ilusória, que acontece quando duas pessoas apesar de  falarem muito mesmo assim, não comunicam aquilo que realmente importa.

 

Podem dizer «gosto de ti» atribuindo à frase significados diferentes. Podem evitar perguntas difíceis para não perturbar a relação. Podem presumir que o outro sente aquilo que elas próprias sentem. E há ainda uma situação mais delicada: uma pessoa pode compreender perfeitamente o que a outra deseja, mas não conseguir ou não querer corresponder.

 

Nem todo o desencontro resulta de um mal-entendido. Alguns resultam de verdades que não coincidem.     Mas há uma questão ainda mais funda: por que razão não coincidem ?

 

Até aqui enumerámos causas psicológicas e relacionais. Mas suspeito que o interesse delas vai além disso. Imaginemos que duas pessoas são adultas, livres, sinceras, sentem desejo uma pela outra e não estão a mentir. Por que razão o encontro pode, ainda assim, produzir experiências interiores tão diferentes ? Uma hipótese é que cada pessoa viva o encontro a partir de uma interioridade a que só ela tem acesso direto.

 

Uma pode reconhecer o outro, ouvi-lo, observá-lo, tocar-lhe e amá-lo. Pode aproximar-se extraordinariamente da experiência do outro. Mas não pode ocupar o lugar do outro e sentir exatamente aquilo que ele sente.

 

Na filosofia, esta questão relaciona-se com a alteridade: o outro até poderá ser alguém que eu conheça, mas nunca posso transformá-lo inteiramente numa extensão de “mim”.

 

E o sexo torna esta dificuldade particularmente visível, porque produz uma proximidade corporal muito intensa sem eliminar a distância entre duas consciências. Os corpos podem estar juntos. As experiências podem sobrepor-se parcialmente. Mas cada pessoa continua a viver o acontecimento a partir de si.

 

Daí uma possibilidade perturbadora: a máxima proximidade física não garante a máxima proximidade interior. E talvez seja precisamente essa diferença que existe quando falamos na metafísica do sexo.

 

O desencontro é inevitável ? Não creio que seja inevitável em todas as suas formas. Mas alguma diferença entre duas experiências será sempre possível. Não podemos garantir que sentimos o mesmo, que atribuímos o mesmo valor ou que desejamos o mesmo resultado ou futuro que o outro.

 

Podemos, contudo, procurar compreender o outro, comunicar com honestidade, reconhecer as diferenças e negociar o que cada um está disposto a viver. O objetivo não precisa de ser uma coincidência absoluta. Pode ser uma relação em que as diferenças são conhecidas e respeitadas.

 

E importa distinguir duas situações:

 

Desencontro sem culpa: duas pessoas descobrem honestamente que querem coisas diferentes. Desencontro com responsabilidade: uma pessoa conhece as expectativas da outra, alimenta-as deliberadamente ou desrespeita aquilo que foi acordado. A dor pode existir em ambos. A responsabilidade, porém, não é necessariamente a mesma.

 

Agora, há três caminhos possíveis, qual é o núcleo do desencontro que interessa?

 

Psicológico: por que desejamos pessoas que não desejam o mesmo que nós ?

 

Metafísico: como podem duas pessoas partilhar a intimidade e viver realidades interiores diferentes se são desiguais nos seus gostos ?

 

E voltamos à vaca fria, à “reciprocidade” ou por que razão aquilo que damos e recebemos no sexo e no amor raramente coincide por completo ? Porque, tenho uma suspeita: talvez não te interesse tanto saber por que as pessoas se encontram, mas perceber por que razão, quando se encontram, não conseguem necessariamente encontrar-se uma na outra.

 

E essa é uma pergunta ou questão bem mais difícil de ser respondida.

 

Imaginemos, duas pessoas dão-se bem em tudo: conversam, entendem-se, riem, respeitam-se, talvez até se admirem profundamente. Existe cumplicidade em quase todos os domínios, mas no campo sexual zero, não conseguem... Não há química, antes pelo contrário... Quando chegam ao campo sexual, nada. Não há atração; talvez exista até uma espécie de repulsa ou desconforto. A compatibilidade entre duas pessoas não é uma realidade única. É possível haver uma enorme compatibilidade humana e, simultaneamente, uma incompatibilidade erótica.

 

Mas o que interessa nessa hipótese é precisamente o por quê. Podem existir várias razões: a pessoa pode gostar muito da outra sem sentir desejo sexual; pode haver uma inibição específica naquele vínculo; pode existir uma ausência de atração física ou erótica que não depende da beleza; ou pode haver algo na dinâmica entre ambos que bloqueia o desejo, que bloqueia a acção.

 

E há uma distinção importante: não sentir atração não é o mesmo que sentir aversão. O zero é ausência; o contrário do desejo já implica uma reação negativa, que merece ser compreendida. A pergunta que eu colocaria no centro desta investigação é esta:

 

Se duas pessoas se entendem tão bem em tudo o resto, por que razão essa harmonia não se traduz em desejo ou no campo sexual ?

 

A harmonia humana não produz necessariamente química erótica. Mas será que essa química é algo espontâneo, independente da nossa vontade, ou pode ser construída, estimulada, aprendida e transformada pela relação ? Uma sente desejo e quer concretizar mas a outra é pudica e moralista e essa pode ser  uma peça fundamental do problema.

 

Uma pessoa sente desejo, quer concretizá-lo. A outra, apesar de se dar bem com ela em tudo o resto, é pudica e moralista e trava algum tipo de aproximação sexual. Ficam três possibilidades.

 

1. Não sentir desejo não é o mesmo que reprimir o desejo.

 

A segunda pessoa pode genuinamente não sentir atração sexual. Nesse caso, o pudor e a moral podem ser a explicação que encontra para uma ausência de desejo que já existia.

 

Ou pode sentir desejo, mas considerar que concretizá-lo é errado, impróprio ou incompatível com os seus valores.

 

São situações muito diferentes.

 

O desejo de um pode tornar-se a pressão sentida pelo outro.

 

Quanto mais uma pessoa procura concretizar a intimidade, mais a outra pode sentir que tem de se defender, sobretudo se interpretar essa aproximação como uma ameaça aos seus princípios. E quanto mais uma se afasta, mais a outra pode insistir, frustrar-se ou sentir-se rejeitada. Forma-se, assim, um círculo em que o desejo de um e a resistência do outro se reforçam mutuamente.

 

A questão mais profunda é a relação entre desejo, moral e liberdade. Uma pessoa pode considerar que o desejo é natural e legítimo, enquanto a outra entende que nem tudo o que é natural deve ser concretizado.

 

Nenhuma destas posições, por si só, nos permite concluir que uma pessoa é melhor ou pior do que a outra. Mas revelam maneiras diferentes de compreender o corpo, a sexualidade e a legitimidade do prazer.

 

E aqui, chegamos a um ponto decisivo: a pessoa pudica e moralista não é necessariamente incapaz de desejar; pode considerar que não deve permitir-se desejar, ou que não deve agir em conformidade com esse desejo.

 

Isso muda substancialmente a análise. Essa pessoa rejeita o sexo porque não sente desejo pelo outro, ou porque acredita que o sexo, mesmo quando desejado, é moralmente condenável ou impróprio naquela forma.

 

Temos duas pessoas que se dão bem em quase tudo. Uma deseja intimidade sexual e quer concretizá-la. A outra resiste, aparentemente por pudor e moralismo. Mas sabemos se essa resistência não esconde ausência de desejo, medo, convicções profundas ou outra coisa qualquer.  Não sabendo não vamos presumir a resposta. Vamos tentar descobri-la. há uma coisa que é certa, duas pessoas sentem desejo. As duas dão-se bem. Mas uma consegue aceitar e concretizar o desejo, enquanto a outra, apesar de também o sentir, fica prisioneira do seu moralismo ou puritanismo.

 

O conflito já não é necessariamente entre duas pessoas com desejos diferentes. Pode ser um conflito dentro da própria pessoa: entre aquilo que deseja e aquilo que acredita que lhe é permitido desejar ou fazer. De onde vem essa proibição interior ? Da educação, da religião, da ideia de decência, do medo de perder o respeito por si própria ? Talvez de uma mistura de tudo isso ?

 

Como pode uma pessoa sentir um desejo que considera legítimo enquanto experiência física, mas condenável quando concretizado sob determinada forma ? O desejo aparece espontaneamente; a censura interior intervém depois. A pessoa pode acabar por viver a própria sexualidade como uma luta contra si mesma. Será que essa pessoa não consegue ultrapassar a proibição ou, num plano mais profundo, não consegue autorizar-se a ultrapassá-la ? Há uma diferença entre não ter capacidade e não se conceder permissão.

 

Não devemos, contudo, concluir que todo o limite moral é uma prisão. Uma pessoa pode sentir desejo e, ainda assim, decidir livremente não o concretizar. O problema que estamos a investigar é outro: o que acontece quando existe uma vontade de avançar, mas a pessoa se sente impedida por regras interiorizadas que não consegue conciliar com essa vontade ?

 

E é aqui que o desencontro se torna particularmente intrigante: o obstáculo pode não estar entre as duas pessoas, mas entre duas partes da mesma pessoa.

 

Temos matéria suficiente para pensar sem corrermos já para conclusões.

 

Porque há uma questão que considero central nesta investigação: como distinguir uma convicção moral verdadeiramente assumida de uma proibição interior a que a pessoa obedece, mesmo desejando libertar-se dela ? Aí, começamos a entrar na psicologia profunda do desejo, da culpa e da liberdade, plano onde uma educação antiquada faz mossa, podemos estar perante algo muito interessante: a educação não se limita a ensinar-nos o que devemos fazer; pode ensinar-nos aquilo que devemos sentir acerca do que sentimos.

 

Imaginem uma criança que cresce a ouvir que o sexo é pecado, que o desejo é indecente, que uma mulher respeitável não deve demonstrar apetência sexual, ou que o prazer deve estar subordinado ao dever e à moral.

 

Mesmo quando essa criança se tornar adulta, adquire conhecimentos e passa a discordar racionalmente de algumas dessas ideias, as emoções aprendidas podem persistir.

 

A pessoa pode pensar: «Não há nada de errado nisto.» Mas, quando chega o momento de agir, sente vergonha, culpa, ansiedade ou uma resistência que não consegue explicar.

 

E aqui está o paradoxo:

 

A razão autoriza aquilo que a educação emocional continua a proibir. A pessoa deseja, mas censura-se por desejar. Aproxima-se, mas trava. Talvez até queira libertar-se, mas a transgressão parece ameaçar a imagem que construiu de si própria, de pessoa decente, respeitável e moralmente imaculada. Não significa necessariamente que seja hipócrita. Pode existir um conflito genuíno entre valores aprendidos, desejo e liberdade pessoal.

 

E há uma distinção importante: compreender a origem dessa inibição não significa que ela desapareça automaticamente. Uma regra pode deixar de ser aceite intelectualmente e continuar a produzir efeitos emocionais.

 

Mas há uma coisa que me interessa particularmente, se essa pessoa deseja e, apesar disso, não consegue ultrapassar a proibição, talvez não estejamos perante uma ausência de sexualidade, mas perante uma sexualidade que aprendeu a vigiar-se a si própria.

 

O desejo e a curiosidade poderão existir; a autorização interior para os viver é que pode faltar.

 

E deixo apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que escolhemos conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de questionar.

 

A liberdade, neste caso, não consistiria em fazer tudo o que se deseja. Consistiria em conseguir distinguir aquilo que verdadeiramente escolhemos daquilo que apenas aprendemos a temer.

 

O desejo existe; a autorização interior para o viver é que pode faltar. Deixo apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que escolhemos conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de questionar. Há uma diferença enorme entre não querer e não se permitir querer. E talvez a tragédia do desencontro esteja precisamente aí: duas pessoas desejam-se, poderiam viver algo que ambas desejam, mas uma delas não consegue conciliar esse desejo com as proibições que interiorizou ao longo da vida. O que a educação construiu, a pessoa pode nem sequer reconhecer esse desejo como uma construção. Pode senti-lo como uma verdade absoluta, ou uma proibição absoluta, uma inibição, como se tivesse nascido com ela.

 

E não basta dizer-lhe que é livre. A liberdade exterior não dissolve automaticamente as prisões interiores. Mas há algo que parece importante: compreender essa pessoa não significa culpá-la, nem significa que a outra tenha de esperar indefinidamente. Significa reconhecer o conflito e perceber que ninguém consegue resolvê-lo sozinho.

 

Talvez a verdadeira libertação comece quando a pessoa consegue perguntar a si própria: «Isto é aquilo em que acredito ou é aquilo em que me ensinaram a acreditar?»

 

Não tem de rejeitar os seus valores. Tem de poder examiná-los e decidir quais são realmente seus.

Os tabus, os preconceitos, as proibições interiorizadas, o desejo, esbarram numa barreira que a própria pessoa transporta dentro de si.

 

E há aqui outro pormenor importante: essa barreira pode ter sido construída muito antes de a pessoa conhecer aquele desejo concreto. Foi aprendida na infância, reforçada pela educação, pela família, pelo meio social ou pela religião, e acabou por se instalar como uma espécie de censura interior. Quando o desejo aparece, não encontra apenas uma possibilidade de prazer. Encontra também a culpa, a vergonha e o medo de transgredir.

 

E assim se produz o desencontro: o corpo deseja, a pessoa quer, mas aquilo que aprendeu a considerar proibido impede-a de avançar.

 

Não sabemos se é exatamente isso que acontece em todos os pormenores desta situação. Mas a hipótese que estamos a explorar é coerente. E há uma diferença entre libertar alguém das suas convicções e ajudá-lo a examiná-las. A primeira coisa seria impor-lhe uma nova regra; a segunda seria permitir-lhe descobrir se as regras antigas ainda correspondem àquilo em que acredita.

 

Porque, no fundo a questão não é obrigar a pessoa a concretizar o desejo. É perceber se ela consegue escolher livremente — incluindo a liberdade de dizer sim, mas também a de dizer não.

 

A liberdade sexual não consiste em fazer tudo o que desejamos. Consiste em não sermos governados cegamente por proibições que nunca pudemos questionar.

 

Acho que foi finalmente encontrado o verdadeiro núcleo da questão, oremos, pois tanto ela se alongou que acabei por perder o comboio e voltar somente no dia seguinte… Não foi bonita a festa, mas tenho esperanças que a reflexão tenha valido  pena…

 




quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

800 - CALADINHO OU LEVAS NO FOCINHO !!!






  

Como todos sabemos é do caos que renasce a Fénix, e este país anda a precisar de uma grande limpeza. Uma limpeza tanto no sentido literal quanto no metafórico, estamos quase quase a dobrar os cinquenta anos do 25 de Abril e cada vez mais portugueses são de opinião ser uma data para esquecer.

 

Não para comemorar.

 

Os partidos do regime, sem excepção, tiveram tempo de sobra para arquitectar os seus sonhos de democracia, de ter ideais e ambição ! Mas e depois ? Depois de instalados esses partidos não tiveram tempo em 50 anos, nem para realizar essa ambição nem para cumprir os seus ideais ? Se esses partidos são tão bons como se acham, por que razão está Portugal tão mal ?

 

Podemos afirmar com uma certeza certa que para além de privilégios para alguns dos seus militantes, nem sequer para todos, esses partidos nem para eles foram, muito menos para os portugueses ou para esta nação.

 

Esqueceram a Pátria, a Família, e até Deus, não respeitaram os seus eleitores nem os seus programas, ao invés de motores de desenvolvimento foram coveiros da dignidade, da riqueza e potencialidades desta nação, venderam-se a si mesmos, e venderam Portugal por um prato de lentilhas.

 

Todos sabemos igualmente que existem problemas com os eleitores, metade deles descrê e não vai votar, e a outra metade vota nos mesmos de sempre julgando, e crendo, que alguma vez os mesmos farão diferente do que sempre fizeram.

 

Diz-se que os eleitores não se interessam pela politica, e nada me admira quando os mídia lhes escondem precisamente o que os faria levantar-se indignados do sofá !

 

Saberão os eleitores que nada ou quase nada em Portugal é nosso ?  Desde estradas, a barragens, a centrais eléctricas, redes de distribuição, transportes, empresas de construção, de metalurgia, cimenteiras, jornais, revistas, rádios, TVs e outras, imoveis aos milhares, herdades, olivais, lagares, rotas aéreas terrestres e marítimas, portos, aeroportos, a banca, os seguros, os correios, os telefones, hospitais, a EDP, qualquer dia só restará nas nossas mãos a mercearia do bairro e o barbeiro da esquina…

 

Agradeçam a esses partidos !! 


São bons a "amanhar-se" e deviam ser iso sim, os seus membros proeminentes julgados criminalmente por traição à Pátria !

 

Qualquer dia não, diria que já somos estrangeiros na nossa própria Pátria !!

 

Jovens casais já não ganham para comprar ou arrendar casa, ou ter um emprego, foram-lhes cortadas todas as oportunidades, dantes emigravam em busca de melhor vida lá fora, agora emigram por não serem capazes de fazer as suas vidas na própria Pátria !!

 

Saberão eles que já nada ou quase nada em Portugal é nosso ?  Saberão mesmo ou têm-lhes escondido a verdade ? Como têm feito com o Covid ? Com a Ucrânia ? Aliás como têm vindo a fazer com tudo ?

 

Por essas e por outras é que não irei ao concerto do Vitorino, um CONCERTO COMEMORATIVO DOS 50 ANOS DE ABRIL A REALIZAR NO TEATRO GARCIA RESENDE EM 16 FEV PRÓXIMO !! 

 

NÃO CONTEM COMIGO PARA ALINHAR NESSA FARSA !!

 

E se estes democratas tivessem vergonha nem comemorariam coisa nenhuma, mais valia terem vergonha do que conseguiram em 50 anos. Conseguiram menos que nada, zero. E não vou ver o Vitorino por ele estar mais velho, pois eu também estou, mas por o ver pactuar com os amiguinhos de sempre, com esta esquerda cega e estúpida que nos enfiou neste abismo, parecendo-me que ao Vitorino só lhe interessar facturar, facturar, facturar...  Devia envergonhar-se de dar a cara e o nome a uma data que nos está a codilhar e a envergonhar a todos...

 

Quem entregou o país ás mãos avaras de uma CEE sedenta de nos engolir ? Quem lhe fez o favor de acabar com as pescas, com a indústria, com a agricultura, quem ? Quem atirou o país para o colo do Euro quando se sabia que ninguém estava preparado para sobreviver no seio de uma moeda forte ? Quem comprou baratas as PME que não resistiram à mudança ?

 

Teríamos à nossa disposição um mercado de mais de 200 milhões não foi o que nos disseram ? Quando nem para tocar viola tínhamos mãos…  Nada vendemos a esses tais, mas eles vieram por aí adentro e tudo nos venderam e tudo nos compraram, só falta mesmo escorraçarem-nos daqui, e já o começaram a fazer !!  


Abre os olhos eleitor português !!  

Abre-os bem porque já somos “metecos“ na nossa própria terra !!

 

BE, PCP, PS, PSD e CDS há 50 anos que nada fazem pelos portugueses, a AD é a cara da incompetência tentando apelar a valores que morreram há décadas ! Depois da morte de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa a direita ficou órfã, até hoje ! E o PS disfarçou-se para lhe roubar o lugar.

 

A NAÇÃO NECESSITA URGENTEMENTE DE UMA DIREITA CONSERVADORA QUE ACTUE EM DEFESA DA FAMILIA, DA NAÇÃO E DOS PORTUGUESES !!

 

NECESSITA URGENTEMENTE DE UM PARTIDO QUE LITERAL E MATAFÓRICAMENTE ENDIREITE ESTE PAÍS !!  Que penalize os mídia que se renderam aos subsídios e se venderam à censura por três tostões. Os portugueses merecem saber a verdade ! Necessitam de órgãos de mídia independentes e que lhes contem a verdade ! O PÁGINA UM não pode ser uma excepção, tem que ser essa a regra ! Os portugueses andam sendo enganados há 50 anos !

 

O novel partIdo ADN, Alternativa Democrática Nacional veio para fazer o que devia estar feito há 50 anos, veio para fazer o que deve ser feito, para fazer o que ainda não foi feito, o ADN pretende precisamente devolver aos portugueses toda a liberdade e dignidade que perderam ao sofrerem com a queda do país num abismo sem fundo e com o crescimento inaudito de uma divida incompreensível e inaceitável !!

 

É nessa barricada que me verão, nas trincheiras do ADN, certamente lutarei por todos e por Portugal, e darei o meu melhor, como sempre, ou não teria aceitado ser candidato e dedicar-me a todo o trabalho partidário a fazer e necessário para resgatar Portugal das mãos dos irresponsáveis, ignorantes, inábeis e incompetentes esquerdistas que dele se apoderaram.

 

Viva Portugal !! Viva o ADN !!

 








O país precisa de uma grande varredela, disso não tenho a menor dúvida...  
Lembremo-nos que há males que vêm por bem ...  😕

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

799 - O HERBÁRIO DO ASTROFÍSICO ...


 

De vez em quando acontece, acontece-me e, desta vez pensei que assim tivesse sido, tivesse ido ao engano, ou não. 

Bem, para ser franco fui, fui e não fui. 

Sim, porque pensara ser o livro uma coisa e saiu-me outra. 

Não porque embora tendo saído coisa diferente não me desiludiu, antes me deixou inicialmente perplexo e depois admirado, surpreendido e finalmente agradecido.

 

Nunca pensara que o velhinho simpático que nos surge na capa fosse o próprio autor, mas é mesmo ele, e estava mais longe ainda de julgar esse velhinho, com toda uma vida dedicada à infinidade e aos mistérios do universo, se dedicasse e deliciasse com coisas tão prosaicas como as flores que pisamos ao atravessar quaisquer caminhos ou ao cortar a direito pelos campos adentro.

 

Desenhei então um quadro mental em que, uma mente sábia e habituada á grandeza e gigantismo das galáxias se debruçava sobre a singela pequenez da enorme beleza que dia a dia ignoramos. Desse modo fui avançando numa leitura que de início me colocara algumas dúvidas, outras tantas apreensões, e à qual torcera o nariz. Mas valeu a pena. 

 

Gosto de biografias e, não sendo o caso, é lícito acreditar que ao lê-lo saberei como pensa e desenvolve o raciocínio mental alguém à altura de um Einstein, acreditei que tal seria curioso e atirei-me ao livro, que me fora recomendado por quem com eles gosta de brincar, com o afã de um crente agnóstico.

 

Saindo de minha casa e virando à esquerda, entrando na privada pública quinta das Glicínias, propriedade do IEFP e centro de formação na área da agricultura e maquinaria inerente, embrenho-me num campo sem fim, pejado de flores silvestres, tal como Hubert Reeves descreve aqueles em que na Borgonha atravessa durante os seus idílicos passeios.

 

Verdade que já vos falara desses campos e os fotografara para um texto neste blogue sobre um outro livrinho, este, ou melhor esse, da autoria da nossa amiga ACL.

 

https://mentcapto.blogspot.com/2016/04/342-o-livro-da-leonarda.html

 

https://mentcapto.blogspot.com/2016/04/343-leoparda.html

 

Todavia, contudo, mas porém nunca é demais aceitar e anuir que olhava esses campos floridos no seu todo nunca me tendo preocupado com os milhares de individualidades florais que o compõem.

 

Verdade que o autor nos descreve cada flor e cada folha com uma ternura e uma paixão que, mais que nos esclarecer nos emociona e enternece (desculpai-me se isto soar a redundância), verdade que a sua leitura nos embevece, e acalma a alma, o que não deixa de ter o seu mérito considerando que as flores não tinham sido até aqui o meu principal foco de interesse.

 

Durante perto de quarenta e cinco anos vivi com uma tão sapiente quão bela flor selvagem, contida, comedida, diplomata, toda ela bom senso e etiqueta, a quem somente as limitações sociais mantinham dentro da jarra a partir da qual jorrava a luz que iluminou a minha vida.

 

Naturalmente tornei-me dependente dessa única e inigualável fonte de alegria, tão dependente que uma vez perdida iniciei a demanda do santo graal, buscar e colher flor igual que de novo apaziguasse os meus dias.

 

Demanda profícua é certo, tão profícua que hoje posso dizer estar literal e metaforicamente rodeado de flores, porém, foi preciso aparecer Hubert, aparecer e gritar-me que do alto da sua cátedra vira uma flor selvagem para que eu, deitando os olhos ao chão, visse de quanta simplicidade e beleza estou rodeado, tanto no que á flora concerne quanto concerne ao factor humano.

 

“Small is beautiful”, quantas vezes li os ensinamentos deste livrinho de mais de duzentas páginas e nos quais muito reflecti nos tempos da minha juventude, demorei mais de quarenta anos a debruçar-me seriamente sobre essa frase e a dissecá-la.

 

“A beleza das pequenas coisas” surpreende-me hoje que, aposentado, parei de correr para chegar a horas, para não faltar, para estar presente, para não falhar, concluindo ter andado correndo atrás de coisa nenhuma, sem tempo para olhar em meu redor e ver de quanta beleza estava cercado.

 

Que a flora vegetal e a fauna humana me perdoem o desiderato, tão parvo fui que exacerbado com os nossos actuais preconceitos, tabus, castas e iluminada racionalidade, nem ao menos vi nem a liliputiana beleza de que sempre estive rodeado nem o incomensurável infinito que preencheu a vida de Hubert, agora virado para as pequenas coisas, ele também um “Deus das pequenas coisas”.

 

Lendo-o sinto que me tornei outro, mais calmo, melhor pessoa, mais feliz, mais desapegado das coisas mundanas e do consumismo irracional que nos cilindra e, em que o mundo, e muito em especial este meu país são férteis.

 

Uma vez mais constato, isto anda tudo ligado, obrigado Ana por me teres levado ao engano.

Uma vez mais ?

Bom Ano Novo pessoal, cuidai de vós.    





 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

798 - COMÉRCIO TRADICIONAL * by Maria Luísa Baião, public. em 2001


                                        COMÉRCIO  &  DINHEIRO *

 

Prezo fazer as minhas compras no comércio tradicional, só a mercearia adquiro, por razões de estacionamento, comodidade e preço, nas grandes superfícies.

Há muito que deixei, porque me prejudiquei e arrependi, de fazer compras significativas nessas grandes superfícies, como electrodomésticos, material de Tv, áudio e vídeo, mobiliário, roupas e quejandos, pois não podemos contar com qualquer garantia ou assistência efectiva, ainda menos com solicitude, atenção e simpatia.

A título de exemplo digo-vos que a fruta em minha casa é excepcional, tão só porque a vou comprar na Senhora da Saúde, ao lugar da D. Vicência. Claro que desde que o faço nunca mais tive que deitá-la fora, quer porque não prestasse, ou porque apodrecesse de um dia para o outro. Ali a qualidade é garantida. D. Vicência não tem coragem para enganar os clientes, tal seria para ela um pecado inconcebível, como o seria para o Senhor António, que nas Corunheiras vela pela qualidade da carne que consumo em minha casa, carne que ele próprio escolhe, embala, e até identifica com etiquetas, para que mais tarde, congelada, me não engane no que pretendo cozinhar.   

Esmeros do comércio tradicional, que me levam muitas vezes também ao mercado municipal.

Talvez haja algo de triste nestas circunstâncias, mas é assim o mundo de hoje e o de amanhã não augura nada melhor. Quantidade não é qualidade, os hiper´s tudo têm em quantidade, mas falham redondamente na qualidade, em especial dos serviços e do relacionamento humano.

É por isso, e só por isso, que vivendo num extremo da cidade, compro a fruta noutro extremo, e a carne mais longe ainda. Mas vale a pena, como vale a pena manter a amizade de toda essa gente que se esfalfa para nos colocar no cesto das compras produtos de primor, e um sorriso agradecido que nos desarma. Que contraste com as caras que nos hiper´s à mínima reclamação nos pedem o “talão ou a factura”, como quem nos pede o cadastro; Qual talão ? Qual Factura ? Quem não os deita fora até sem dar por isso ? modos de ver o mundo, paciência.

Quando por vezes olho para mim, observando o que me rodeia do alto dos meus quarenta e quatro anos, não posso deixar de pensar como a vida é lenta, tão demorado o tempo para que aprendamos qualquer coisa, e como tantas vezes, por comodidade, nos enganamos a nós mesmas (os).

Foi pois com alguma pena que dei conta das noticias assinalando o descontentamento de alguns comerciantes da nossa praça, insurgindo-se com o eterno arrastar das obras no centro histórico, e às quais atribuem as responsabilidades pela queda das suas vendas. Dei para comigo meditando que algo de grave se passaria, pois só isso justificaria que o comércio tradicional, uma classe por natureza tão recatada e comedida, tivesse vindo indignada para a rua fazer ouvir a sua voz.

Nunca como hoje o comércio tradicional esteve sujeito a um cerco tão apertado, resultado do mundo ter rodado mais depressa do que imaginámos, não disse eu atrás que penso ás vezes como a vida é lenta ? Não é contudo pelo facto de eu o pensar que ela se move mais devagar, e se alguém há a culpar por isso, culpemos Copérnico e Galileu, não foram eles quem nos tirou do centro do Universo ?

Mas não desarmem os comerciantes da nossa praça, começada uma luta, mau sinal seria que a não levassem até ao fim. Até porque as suas armas são difíceis de igualar, a cordialidade de um atendimento personalizado, por um lado, com a qual terão que saber combater a hegemonia das grandes superfícies, e a razão por outro, que já há muito deviam ter esgrimido perante quem lhes anda a comer as papas na cabeça.

Não creio, e bem avisados andarão se não acreditarem, que estejam nas obras as culpas das baixas vendas que apontam, ou não é verdade que outros comerciantes, noutras zonas da cidade que pelo contrário nunca viram obras, se queixem do mesmo mal ? A queda das vendas ?

O problema (e a solução), está na economia senhores ! Ou não viram ainda que esta é uma cidade adiada, e, se teimarmos, sem futuro ? Onde está o dinamismo económico desta cidade ? Não se vende ? Mas como vender a quem tem com a habitação mais cara do país um pesado encargo ? Como vender a quem, por culpa dos ineficientes transportes públicos que temos, é obrigado a encalacrar-se para comprar um, quando não dois carrinhos ? E vender a quem, se por causa do estacionamento (e das obras), o pessoal foge da cidade como o diabo da cruz ?

Vejam com os vossos próprios olhos, o Público de Sábado passado, 18 do corrente, pág. 13 do Caderno Mundo, onde o nosso presidente** admite preto no branco, uma …“preocupação quanto ao desenvolvimento económico, que considera “aquém de outros indicadores”... Outros ? quais outros ? E só agora se preocupa ? Passados tantos anos ? Nessa mesma peça jornalística, o nosso presidente caracteriza este mandato como o da modernização, requalificação urbana e afirmação de Évora, afirmações de que me riria, não fosse o receio de o ofender. É óbvio que o nosso presidente nada fez nem conseguirá fazer, já que nenhum governo o deixa fazer o que quer que seja. Mudar tudo para que tudo fique na mesma diria o senhor "La Pedusa", normal, apanágio da nossa  esquerda. 

Das duas, duas, não escolhe ele o governo, mas escolhemos nós outro presidente.

 


* Crónica publicada no Diário do Sul, coluna Kota de Mulher, em 24 do 8 de 2001

** Abílio Fernandes PCP