terça-feira, 19 de março de 2024

811 - NUNO JÚDICE - in POEMÁRIO - R. I. P.



 POEMA  *

 

  

Parte: como se tivesses de ser esquecida,

deixando atrás uma imagem de sombra.

   

Não leves contigo as palavras que trocámos,

como cartas, num instante de despedida;

mas não te esqueças da luz da tarde que os teus olhos abrigaram.

 

Por vezes, lembrar-me-ei de ti.

 

É como se, ao voltar-me, ainda me esperasses,

sem um sorriso,

para me dizeres que o tempo tudo resolve.

 

Não te ouço;

e, ao aproximar-me dos teus braços,  

vejo-te desaparecer.

 

Mais tarde, penso, isto fará parte de um poema;

mas tu insistes.

 

O amor chama-nos, de dentro da vida;

obriga-nos a renunciar à imobilidade da alma,

a sacrificar o corpo a um desejo de memória.

 

* NUNO JÚDICE , in "Poemário" **

 

(29.04.1949-17.03.2024)                       R. I. P.


** https://textosdepoesia.wordpress.com/2013/12/09/poema-nuno-judice/




quarta-feira, 13 de março de 2024

810 - A AMARGA VITÓRIA DOS CHEGANOS ...

                         



Na actual situação e com focos problemáticos um pouco por todo o país, atingindo muitas distritais e concelhias, fustigando o Chega devido à existência em muitos desses focos de um déficit de democracia, de imparcialidade, de isenção e de experiência politica, fácil se torna concluir que a fasquia deveria ter sido colocada muito anteriormente e muito mais alta.

 

Ou isso ou o CHEGA não passará da breve colheita de um flash. Depois da ascensão fulgurante do dia 10, que já o disse não passará dum breve flash, dum breve benefício e ainda mais curto momento, preconizo-lhe nas próximas eleições uma queda abrupta na realidade. Até lá os eleitores terão tempo para ver que o Chega tem muita lábia, muita conversa, mas pouca ou nenhuma capacidade de realização.

 


 Quer seja ocupando instituições, empresas públicas, assembleias, municípios, presidências ou quaisquer outros lugares de decisão de norte a sul com gente impreparada, irão surgir forçosamente centenas senão milhares de impugnações dos precipitados, impulsivos, irreflectidos e transviados actos dessas administrações Chega, as quais encherão tribunais mas sobretudo inviabilizarão o normal funcionamento de quaisquer entidades, resultando dessa vitória a apreensão pelos eleitores de que os quadros do Chega não estão preparados para a função e a sua acção será mais perniciosa que benéfica para o país e para os concelhos. O meu amigo DM entenderá isto melhor que ninguém.

 

Os mesmos eleitores que lhe deram a vitória ir-lhe-ão  gradualmente retirando os votos que tinham impulsionado essa ascensão e, a vitoriosa curva ascendente do Chega virará uma outra curva de natureza diferente, descendente, e acusando a diluição dos votos, da confiança perdida, e do declinar do poder do Chega.  

 


Muito dificilmente o Chega recuperará duma queda assim, nenhum populismo lhe valerá nem poderá continuar sendo o partido de um homem só. Só então AV verá com pesar de nada lhe ter servido andar a correr para assim se estampar, terá que redobrar de esforços para voltar a convencer, não aliciar mas convencer intelectuais, artistas, académicos, cientistas, investigadores, professores, enfermeiros, carpinteiros, serralheiros, militares, policias, empresários, quadros médios e superiores, e a todos aqueles de que não se soube rodear.

 

O problema é de justiça, o pessoal anda sedento de justiça, e o Chega aproveitou para cavalgar essa sede e transformar-se no cavaleiro justiceiro, num rolo compressor, num cilindro justicialista. Vai daí soltou todos os demónios da sua tropa fandanga esquecendo-se de que lhe será muito difícil ou mesmo impossível voltar a encerrá-los na lamparina.

 


O país poderá ver-se na contingência de vir a estar uns anos não diria desgovernado mas reformando-se aos encontrões e tropeções, o país será alvo não de um Tsunami reformista originado pelo Chega mas por um verdadeiro arrastão que tudo levará cegamente na frente.

 

E a quem pertence a culpa desta passagem cronológica do que será a nossa história futura ? Dos mesmos de sempre, os partidos do sistema que, travando reformas que há muito deveriam ter sido tomadas criaram as condições pra que agora o sejam a destempo e sem quaisquer travões. Vai haver justiça, vai haver reformas em catadupa, o país vai mudar, o país vai sofrer mas as reformas vão fazer-se. Atabalhoadamente, mas far-se-ão, vamos ter pelo menos uma década de revolução de transformações e reformas.

 


Vai ser a nossa Revolução Cultural à moda da China, vinganças, mesquinhices, ajustes de contas, delações, falsas ou não. O disse que disse e a bufaria irão ser o pão nosso de cada dia.

 

Tudo porque Montenegro não será capaz de evitar dar a chave do palheiro a um pobre. E então é que vai ser o bom e o bonito, será suficiente olharem se o quiserem ver de chave na mão, arrogante, presunçoso e mais papista que o Papa.

 


Não é o facto do Chega ser de direita ou extrema direita que nos deve preocupar, essa terminologia caducou há muito, deve preocupar-nos o Chega ter feito da ética letra morta e seguido as pegadas de Teresa Guilherme, que afirmou não me lembro já onde nem quando “não dar a ética de comer a ninguém”… Pois não, mas também não lhe tira a comida da boca… Avizinham-se tempos conturbados, inclusive com pequenas ou grandes revoluções dentro de cada um dos partidos do sistema, afinal e por omissão os culpados do mal de que agora se queixam.

 

O recuo na disciplina de filosofia no ensino secundário, efectuado há uns bons anos iremos pagá-lo agora, às mãos de gente sem princípios, sem valores, enfim, às mãos de uns amores…

 


Não se ter dedicado A.V. e o partido a causas e problemas estruturais, a problemas globais, dando de si uma imagem sólida, eficiente, capaz, responsável, íntegra, e que gerasse confiança no eleitorado e no futuro dos portugueses, nem que para isso tivesse sido necessário distribuir bastonadas à direita e à esquerda, fosse sobre pretos fosse sobre brancos mas vincando a garantindo a autoridade e a justiça, a igualdade e uma democracia musculada, vai sair-lhe caro.

 

Dir-se-á, como diria Shakespeare se fosse vivo;

“Tanto barulho para nada” …

 

Tanta correria para nada digo eu …


19062021


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

809 - TOLHERIAS, TULHERIAS, COLHERIAS ...



A ideia era que eu descolasse, me livrasse do que me apoquentaria ou tolheria a felicidade, tolheria, Tulherias, tellement contente d'être allée plusieurs fois au jardin des Tuileries, como se eu não fosse feliz ou pudesse ser, ou sê-lo mais esquecendo o passado, fundindo-me com o presente, abraçando o futuro, antevendo nesse futuro um anjo de braços abertos, esperando-me, aguardando-me, acolhendo-me, recebendo-me.

 


Era uma ideia tentadora, mas sendo eu um anjo feliz, una persona feliz, uma boa pessoa, uma pessoa excepcional, que vantagem tiraria daquela doutrina, daquela praxis, sabido ser que a memória se não apaga, apenas se acrescenta, se soma, e que + por + dá mais, - por – dá mais, + por – dá menos, - por + dá menos, tal qual me ensinou o mano há mais de cinquenta anos numa cábula que ainda anda por aí numa gaveta qualquer pois nunca tive coragem de atirar fora aquela preciosidade. 

 

Tentar apagar a memória seria como dilacerar a minha personalidade, o meu caracter, honestidade, transparência, sanidade mental, e todas essas merdas que acumulamos p’la vida fora e fazem de nós quem somos e como somos. 


Porque estas coisas se cultivam, cada um de nós constrói-se a si mesmo ou deixa que outros coloquem os tijolos, eu fiz-me a mim mesmo escolhi um molde exemplar, molde hoje em dia desvalorizado, hoje os aldrabões ultrapassam-me e ganham-me aos pontos, contudo eu prezo a pessoa que sou e diria sem sentido pejorativo e parafraseando Charlie Chaplin, "amo-me a mim mesmo" por isso mesmo caras amigas, sim, amigas, podem tratar-me por Bertinho pois o que me encanita é somente a desfaçatez já que em mim até o pior inimigo pode confiar, só tenho uma palavra e ainda estou no pleno gozo das minhas faculdades, e da sanidade mental que todavia tanta gente já perdeu, sanidade mental, precisamente ou talvez a área onde porém me considero mais forte ainda, pois não descarrilo, nem haverei nos tempos mais próximos de trazer amargos de boca a ninguém, posso até dizer e garantir que nessa área estarei mais bem preparado que a grande maioria, já que desde os dezanove ou vinte anos fui "treinado para ter as costas largas" neste caso a mente larga...

 

Capacidade mental elevada, "treino" que foi infelizmente sujeito à prova máxima e resistiu, não me deixei submeter nem submetido a sevícias mentais e psicológicas, nem às físicas, muito menos a essas. Neste aspecto diria ter saúde para dar e vender, não carrego nada que não deva e orgulho-me da verticalidade que me caracteriza, inda que esteja na moda o contorcionismo e a mudança de opinião de acordo com os interesses do momento...

 

Eu fui e sou construtor de mim mesmo, a self made man, e portador de uma personalidade que há 40 ou 50 anos valeria milhares como garantia ao balcão de qualquer banco ....

  

Honestidade, transparência, sanidade mental e todas essas merdas, quem assim falou não foi Zaratustra, foi ela, sim uma ela que não vai à bola comigo mas de quem eu gosto, foi ela quem viu, viu as minhas lealdades e transparências tão factuais e verdadeiras quão elas são e podem ser observadas à vista desarmada, sem lupa, tão à mão que ninguém precisará de um bisturi para as dissecar, ou de as colocar a secar sobre o relvado do Jardim das Tulherias, sim, ali expostas pois até eu gostaria de as ver, tão caras me são, tanto tenho penado para as manter, foram sedimentadas a pulso, tal como os alicerces da casa do Bacelo, que enchi à mão com a Luisinha.

 

Sim, com a Luisinha, há tanto tempo, era uma máquina ela, não perdia nem tinha tempo a perder com merdas, era do tipo arregaçar as mangas e vamos a isto, por isso agora este vazio e nada para encher, nem alicerces, nada nem ninguém que arregace as mangas, que me faça lembrar a Regisconta,

 

O homem da Regisconta, aquela máquina !

 

Vagueio pelo Jardim do Palácio de Cristal como há anos vagueei pelas Tulherias, mas agora sem rumo, pontapeando as pedras, e vem-me à memória o amigo Orlando Cristo de Carvalho, de Viana, que mandou duas ou três camionetas descarregar os restos de mármore com que enchemos os alicerces, à borla, porque eu merecia, porque era leal e transparente, já nessa época ele o sabia, Deus lhe torne leve os sete palmos de terra que tem por cima,

R. I. P. amigo Orlando.

 


Pois é, olhem, vou confessar-vos, parece que ainda a estou a ver á saída do cinema, parece-me sentida, arrependida pelo filme que fomos ver, naturalmente não tem culpa disso nem tal interessa, porque o que interessa foi o dia que passámos, foi o tempo que passámos juntos, foi o princípio de tudo, foi a confiança que se gerou entre nós e que se transmitiu, que se ganhou e que se alicerçou, e a confiança é a pedra base, o alicerce inicial de qualquer amizade.

 



Foi isto que então pensei sim, contudo lembro ter rematado o meu pensamento jurando de mim para mim que no próximo filme que fossemos ver, e se por acaso ele não prestasse, me sentaria e sentiria mais próximo dela, e me sentiria com confiança para, no escuro do "balcão" lhe pegar na mão para a consolar e não me ficaria pelos rebuçados, pegar-lhe-ia na mão com ternura e levaria no bolso, escondido, um saquinho de rebuçados que lhe depositaria em mão com carinho.

 

R. I. P. Luisinha.





quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

808 - O CHEGA, DA IMPORTÂNCIA POLITICA AO PAPEL HISTÓRICO NA ACTUAL E INSTÁVEL CONJUNTURA NACIONAL ..........

 

       A política, como a natureza, a química, a física,  amor, o universo, tem horror ao vazio e, como sabemos, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.  

 

É o que tem vindo a acontecer com o medo e a sangria que o Chega provoca nos partidos do sistema, se eles não o fazem e há espaço para o fazer e necessidade de ser feito alguém o fará, alguém dará o passo em frente, o Chega deu.

 

Os velhos e entrevados partidos do regime esqueceram a velha máxima;

 

Podemos enganar todos algum tempo

Podemos até enganar alguns o tempo todo

Não podemos é enganar todos durante todo o tempo…

 

O novel Chega soube interpretar a vontade dos eleitores e a necessidade de mudança, de limpeza, de redenção, fazendo-se arauto desse papel o Chega conquistou um lugar no coração dos portugueses e fez-se vanguarda da revolução que ele mesmo passou a apregoar.

                                                                                        


A democracia é o sistema mais frágil de todos, e o único que não tem mecanismos de preservação ou de auto defesa, dependendo da atenção, cuidado e vigilância dos cidadãos e dos eleitores. Ora os cidadãos tratam os partidos como os clubes de futebol da terra, jurando-lhes fidelidade eterna tenham eles os resultados que tiverem.

 

Não pode ser, sou fiel ao meu clube mas castigo os partidos que não cumpram com o que acho que devem a todos nós, por isso comecei na UDP na minha adolescência, já fui comunista, quando jovem maduro, bloquista, socialista, abstencionista, desiludido, revoltado, já fui tudo quanto vocês poderão imaginar. Não passo é um cheque em branco a nenhum partido, o voto é o timão com que o eleitor pode fazer guinar os partidos e conduzir a nação. Não abdico dele, nem de lutar pelos direitos de todos nós.

 

Portugal poderia ser um país tão ou mais rico e moderno que a Suíça, ao invés disso e graças ao nosso bairrismo caminhamos alegremente e pela mão de partidos nepotistas para um inaceitável quarto mundo… Poderíamos ter sido mas não somos, o PSD ficou órfão desde a morte de Sá Carneiro, e o CDS infantilizado e imprestável a partir de Freitas do Amaral, Lucas Pires e Manuel Monteiro.



Em 5 de Outubro de 1910 tivemos o bambúrrio que nos conduziu à Primeira República, que acaba em 1926 tendo a Salazar sido pedido que encabeçasse a pasta das Finanças. Os democratas de então conseguiram fazer durar a república e a “democracia” somente 16 anos, desta feita, graças à famigerada CEE, que nos deu uma cana de pesca mas não nos ensinou a pescar, e acumulando uma dívida inaceitável estamos prestes a comemorar 50 anos de desastre, corrupção, amiguismo, compadrio e nepotismo.

 

Portanto esse tal partido, o inominável, o tal de que muitos nem querem dizer o nome, é tão português e tem tantos direitos quão os demais, e tem sobretudo no momento presente um importante papel histórico a desempenhar, o de desbloquear o impasse em que os partidos do regime, ciosos de perder a teta onde mamam há 50 anos, nos lançaram sem apelo nem agravo.

 

O inominável Chega é pois o esperado e desejado instrumento de que a necessidade se serve para provocar a mudança imprescindível, o Chega é o veículo que trará o caos e deixará as cinzas de onde se erguerá a Fénix, sim esse mesmo, o Chega, o partido sem o qual doravante, depois de 10 de Março, nenhuma política será delineada, o partido de um homem só, o partido do “Homem Orquestra” *




Este caso único, este partido único, o Chega, surgiu por geração espontânea devido a um choque entre André Ventura, um militante do PSD que este não quis ouvir, como não quis nem quer ouvir ninguém, idem para os restantes partidos do sistema, incapazes de absorver ideias que não sejam oriundas dos seus prosélitos sábios, os tais sábios que têm conduzido o país ao fosso em que se encontra. Da contestação Justa de André Ventura nasceu o Chega, rapidamente espelho e reflexo de muitos injustiçados, por isso cresceu, cresceu, cresceu até ao momento em que André Ventura e o partido se confundiram.

 

O Chega quer se queira quer não é ele, e se ele se apagar o partido acaba-se, apaga-se. Mas atenção, um partido que vive à sombra duma personalidade não é partido, tal como um personagem que viva a sombra de um partido não é personalidade nenhuma, é um homem orquestra, is a one man show. Quer um quero outro são parasitas vivendo em simbiose e, a nossa sociedade, a nossa nação, tem parasitas de sobra como todos os bem sabemos. *




O que importa sobremaneira é combater a esquerda com inteligência, com propostas e soluções inteligentes, dando primazia ao homem, ao ser humano, ao valor e iniciativas individuais, acabando com esta desastrosa economia centralizada camuflada de democracia, acabando com a ilusão do colectivo, privilegiando o indivíduo, o seu labor, o seu entusiasmo, as suas ideias, o seu trabalho, o seu mérito.

 

O papel do Chega, que parece ter eleitores em quantidade, mas não os ter em qualidade, que terá muitos militantes mas nenhuns quadros, é sabido que o problema do Chega foram sempre as pessoas, o papel do Chega dizia eu, será o de fazer o trabalho sujo, desempenhar esse tal papel histórico que nas revoluções cabe aos líderes, aos vanguardistas que depois da barraca armada são tragados. 


Como é dos livros as revoluções tragam os seus filhos mais dilectos, Robespierre, sem dúvida a figura mais controversa da Revolução Francesa e uma das personalidades mais importantes dessa revolução, o homem cuja intransigência lhe valeu o apelido de "o Incorruptível", foi guilhotinado no dia 10 do “Termidor”, nem chegou a ver o fim da sua revolução …



 

Preparemo-nos portanto para o day after, o dia para o qual o Chega não está preparado, irá a reboque, vai atrelar-se, irá influenciar, vai mudar muita coisa, mas não subirá aos céus no dia em que a Fénix se erga nos ares e a liberdade e a democracia voltarem de novo a ser apanágio deste país. O lixo será varrido, os velhos partidos tentarão não desaparecer e os novos, os novos partidos representantes da direita conservadora estarão como sempre na linha da frente para garantir o adn puro, nacional, e a continuação desta tão sofrida nação. Há mais marés que marinheiros, a história não pára, nunca parou, haja esperança, a vitória está certa,

 

Hasta la vitória siempre !!!!!!!!!!!!!

 





terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

807 - O BELO AUDY Q5 GRAFITE DA NANDA ...




O AUDY Q5 GRAFITE – FICÇÃO OU NEM TANTO

 

Sim, claro, todos nós, com maior ou menor eficiência nos pusemos em campo a partir de Milfontes afim de travar o abusador, o bandido, o ladrão, tentando evitar que ele conseguisse vender o Audy Q5 Grafite da Nanda, em férias connosco, mas que o deixara nas mãos do namorado, que

 

somente agora se viera a saber, era um tratante oportunista, batido e encartado, expert em dar a volta ás mulheres, sacar-lhes tudo quanto pudesse no menor espaço de tempo e partir para outra.

 

Eu partilhara em tempos no ramo automóvel grandes responsabilidades em pelo menos duas grandes firmas do sector, tinha os meus contactos e conhecimentos, os quais se mostraram de grande valia e utilidade embora não negue que passados mais de 20 anos a coisa me tivesse custado quase os olhos da cara…. Quase quase pois nenhum dos concessionários de antanho existe hoje, as firmas mudaram a um ritmo estonteante e os responsáveis delas haviam trocado de contactos móveis senão uma, duas ou três vezes. Vocês nem imaginam a trabalheira, mas consegui !!

 

E tudo praticamente a partir da praia de Mil Fontes, através do telefone !! A técnica hoje em dia é tudo, e foi realmente tudo !! Foi montada uma armadilha ao bandido numa das muitas firmas contactadas e, quando ele apareceu de carro e papelada, e já depois de se encontrar gulosamente com a narda nas mãos, a autoridade saiu detrás do biombo e apanhou-o em flagrante, em flagrante de litro balbuciou alguém sustendo o riso. Naturalmente a papelada era toda falsificada, assinaturas da Nanda inclusive e principalmente, de modo que o malandro levou logo ordem de prisão, mais tarde convertida em prisão domiciliária e obrigação de apresentação bissemanal na esquadra da sua residência…

 

Exultámos todos, a Nanda, cujo carrito fora comprado a prestações, e portanto adquirido com algum sacrifício, não fora molestada, o carro ainda que apreendido era dela, agora era esperar que a burocracia andasse, e havia de fazer-se justiça, agora não haveria falhas, o canário estava encanado e de pulseira electrónica no tornozelo…..

 

Mérito sobretudo meu, logo ali e no momento a Nanda, chorosa, desiludida e abandonada pelo seu amor, desfeita em lágirmas, me quis agradecer as diligências convidando-me para um almoço, mal chegássemos a Évora e no novo restaurante do Degebe, o mais recente moderno e típico restaurante por aquelas bandas, encostado ao rio, com uma bela, novíssima e amimadíssima esplanada !  Casa das Migas e Petiscos se não me falha a memória.

 

Conversa para aqui conversa para ali, confessou-se ingénua e inocente em demasia para a idade, desiludida, de autoestima em baixo, sem saber para onde se virar e completamente desorientada. Ela nunca se teria sequer lembrado de desenvolver as démarches que eu meti a rodar a partir da esplanada do restaurante na praia de Mil Fontes e bla bla bla, admiradíssima com a minha prestação, lembrando agradecida o seu belo carrito, olhando para mim e confessando ser de um homem assim que ela precisava.

 

Ou seja, seria de um como eu, com o meu saber, a minha manha, e a minha experiência que ela estaria necessitada, eu ia engolindo em seco, corando a cada elogio e sem saber onde meter-me ante tanta admiração, sobretudo tão abertamente expressa, magicando como fugir àquela prisão anunciada agora que, nem ultrapassada se encontrava ainda a cruciante dor duma perda sofrida, estava há anos gozando da liberdade e do deleite da minha pacata viuvez….

 

Embora sentindo-me num pedestal, num altar, não perdi nem a calma nem o controle nem a minha habitual bonomia, ou não fosse eu de Vila Nova da Baronia. Não era eu que era especial, era ela, gentil alma inocente, que nem cria haver maldade no mundo, bla bla bla… Fui-lhe regando o pezinho, fazendo-lhe crescer a estima por si mesma, que estivesse à vontade comigo, que embora aposentado outros compromissos me ocupavam as horas semana quasi por completo, começando pelas sagradas horas do ginásio KUMA, da Susana e do André, dois experientes diplomados que me vão conseguindo manter a rodar sem ferrugem, sem chiar, com boa aparência, pouca barriga e melhor disposição.

 

Ela, a Nanda, agradeceu, disse que, contudo, iria pensar nisso, e eu fiquei marado sem saber o que teria ela querido dizer com o ir pensar nisso, mas duas horas passadas estava esclarecidíssimo…. Esclarecido e convidado para um jantar em casa dos pais dela, assim eu tivesse disponibilidade. Ter tinha claro, as aulas no ginásio são sempre de manhã, o problema era a minha aversão à coisa que ela estava preparando, pelo que um belo dia, contrariado, muitíssimo contrariado, todavia lá fui comer as febras grelhadas com salada e um verde muito verdinho e bem fresquinho, ouvindo ora a Nanda ora a mãe ora o pai, todos eles de modo unânime agradecendo a amabilidade por mim colocada ao serviço da filha que num remate binário e quando eu menos esperava declarou necessitar da minha protecção e presença, como quem confia num abraço protector, da Securitas ou de qualquer outra, e sorrindo, sempre linda, sentou-se displicentemente numa das minhas coxas, abraçando-me com sensualidade, rindo para os pais que, mais espertos que os julguei, logo ali abençoaram a ideia, me pediram que a apoiasse, que não olhariam a custos, tendo marcado e anunciado de imediato um beberete para um próximo sábado, á laia de copo de água, ainda eu não me tinha refeito da surpresa e já eles todos telefonavam aos amigos dando novas da beberete e convidando e confirmando quantos e quem nesse sábado apareceriam, a festa poderia até estender-se e continuar noite dentro na casa dela, que se limitassem a trazer as garrafas dos melhores vinhos que quisessem e lembrassem que Deus nos protegeria e daria longa vida….

 

E foi mais ou menos assim que a minha vida mudou de um minuto para o outro, hoje pau de cabeleira e segurança de uma escultural sessentona, virgem diz ela, linda, magra, uma das loiras mais inteligentes que conheço, mais parecida com uma cobra que uma cobra de verdade, dentes brancos e limpos, brilhantes, unhas de gel extremamente cuidadas,  cintura de vespa, acho eu que estou a ver mal, ainda estonteado com tudo isto, tendo fé nas aulas do ginásio para conseguir levar sempre a moça a bom porto, sorrindo, sorrindo sempre, para o meu futuro e o dela que me confundia com o pai e não me largava um minuto, eu sempre atrapalhado e meditando nos 7 chakras, no meu mantra, na minha aura, todo eu magicando em como aproveitar tanta energia positiva para me safar, estou já pensando em frequentar os banhos de cristais e tantas outras merdas que nem aprendera no meu longo tempo de vida e que noutros sentidos talvez muito me servissem para alguma coisa.

 

Aqui estou surpreendentemente infeliz, e agora sim, agora é que vou saber se a narda investida no ginásio valeu e vale ou não vale a pena, eu sinto-me confiante p’ra enfrentar as adversidades, perdão as bondades da nova situação, isto é fortuna,  sorte, e sucesso, que exigem muito controle, muita concentração e ainda mais tolerância,  isto é uma estranha sensação duma mistura eclética de  prisão e boa disposição, de alegria e satisfação anormalmente ligados a este tipo de enredo e decorrente desta nova situação….

 

O máximo de contrariedades seria não conseguir dar conta do recadado, ter que exigir do ginásio a devolução da narda extrapolada ou esportulada, coisa em que não creio nem desejo, o Audy Q5 Grafite da Nanda tem uma cor linda, a Nanda depois daqueles dias de praia tem uma cor ainda mais linda, eu estou a caminhar para a velhice e ela tem um regaço capaz de me acolher se necessário, e um peito mais que generoso para a criança em que com os anos me irei tornar…. Enfim, um verdadeiro altar, eu quero é sonhar, eu quero lá mudar de emprego agora, eu quero é sol e praia, dias risonhos, e… passear no Audy Q5 Grafite da Nanda .......... Kkkkkkkkkkkkkkkkk


Mas… Surpresa das surpresas !! Quem até aqui mais chorara baba e ranho, a Nanda, numa tão repentina quão inesperada atitude, passa a partilhar e defender toda a merda que o bandido do namorado fizera e passa a defendê-lo e justificá-lo com unhas e dentes !!

 

A malta ficou sem folgo e com menos vontade ainda de lhe dar a volta á cabeça e proporcionar-lhe uma nova lavagem, inútil, vocês já ouviram falar na Síndrome de Estocolmo ? Assim estava ela, mesmo novamente apanhadinha de todo !!

 

É que sem que ninguém desse por isso a Nanda durante a noite mantinha conversas online com o bandido do namorado, este por sua vez conseguiu incutir nela, loira claro, duvido que acontecesse com uma morena, os seus pontos de vista de vítima desta sociedade desigual, diferenciadora, não democrática, e nem imagino que mais nem quais, palavras amorosas e verdadeiras doçuras para o coração atormentado da Nanda, verdade verdadinha é que lhe voltou a dar a volta, até à próxima desgraça….

 

 Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima, neste caso a Nanda, criou uma ligação de afecto ou lealdade com o seu agressor de tal modo forte tão irracional quão paradoxal, a Nanda passou a sentir um carinho inexplicável por quem tanto a ludibriou, maltratou, condicionou e dela abusou.

 

A ciência explica esta coisa como uma estratégia de sobrevivência ditada pelo cérebro, que usa este absurdo, usa isto para se defender dum qualquer perigo extremo. Ora a Nanda apenas fora enganada, ludibriada, deixara-se embalar pela conversa da treta dele, fora ardilosamente iludida ao permitir ser enganada por um individuo sem escrúpulos cujo objectivo mais não fora que tentar e com recurso ao logro viver e beneficiar à custa da Nanda e se tudo isto, que já acontecera anteriormente com outras mulheres (e de que a Nanda tinha conhecimento) dizia eu se isto não é escarnecer e burlar não sei que lhe hei-de chamar….

 

E no meio desta novela eu ? Eu sairia sempre a ganhar, ou como segurança facturava, e daria uns passeios enquanto a acompanhava, e a consolaria nos momentos de maior fraqueza… Perdi todo esse lado bom na nova relação que se criara, do novo emprego ou nova ocupação, é certo que perdi, mas ganhei muito mais ao não ter que suportar uma Nanda incoerente, bipolar, inconsequente, irresponsável, imprevisível, e duma coisa tenho a certeza, não demorará que ela ande de novo a gritar por socorro, socorro, socorro, o que eu duvido é que ainda haja gente, haja alguém disposto a ouvi-la……

   

Ainda por cima a Síndrome de Estocolmo não é considerada doença oficial, os vários manuais que classificam a doenças, naturalmente manuais médicos e oficiais como o DSM-5 ou a CID-11, não reconhecem esta condição como um transtorno mental formal, quando muito e extraoficialmente tal desiderato é atribuído á vivência no seio de seitas.

 

Sabemos que pode acontecer a vítimas de sequestros ou de raptos, pode surgir num ambiente de relações de violência doméstica ou de abusos sexuais, tal como se tem constatado existir entre pessoas submetidas a tráfico humano ou que trabalhem debaixo de pressão, de stress, ou em ambientes de trabalho tóxicos …

 

A nossa Nanda anda somente pendurada pelo beicinho e pingando amor atrás do bandido para onde quer que ele vá, não anda doente, anda cega, anda a dormir, mas, como há 50 anos atrás os anarcas escreviam em letras vivas e garrafais nas paredes da nossa cidade, “ dormir entre lençóis de sangue vos acordará” ….. 


 202609,6,5